A masculinidade em Ad Astra

Brad Pitt explora a masculinidade tóxica em ficção científica de James Gray.

Por Ieda Marcondes em 27/09/2019

Filmes passados no espaço costumam lidar com temas religiosos e as nossas relações em família. A busca por vida inteligente nos confins do universo esbarra, quase que invariavelmente, na procura por Deus e na lembrança dos entes queridos que foram deixados para trás. É assim com “Contato”, “Gravidade”, “Interestelar” e até “Guardiões da Galáxia”. O que há de diferente em “Ad Astra”, novo filme do diretor James Gray (de “Z – A Cidade Perdida”), é a representação masculina de seu protagonista, interpretado por Brad Pitt.

Roy McBride (Pitt) é um astronauta calmo e dedicado, conhecido por controlar os próprios batimentos cardíacos, mesmo em situações de estresse intenso – isto é, até ser convocado para descobrir o que houve com a missão espacial de seu pai, o Dr. Clifford McBride (Tommy Lee Jones), que desapareceu vinte anos atrás, a caminho de Netuno. Uma jornada dificílima, com inúmeros acidentes no percurso, fará com que Roy reflita as suas relações pessoais e acabará mudando radicalmente a forma com que ele lida com os próprios sentimentos.

Retratar um personagem masculino com tanta vulnerabilidade é crucial no momento em que vivemos, com o aumento dos crimes de ódio e dos atentados violentos perpetrados por homens ressentidos que adotaram a ideologia da extrema direita. Tanto nos Estados Unidos como na Europa, a grande ameaça terrorista não é mais o radicalismo do Estado Islâmico, mas o homem branco que se vê como um injustiçado e que culpa as mulheres e outras minorias sociais pela própria inaptidão de se encaixar na sociedade.

Escalar Brad Pitt para viver tal papel é uma jogada de mestre, pois vai contra o símbolo que o personagem Tyler Durden, de “Clube da Luta”, se tornou para o movimento incel (os chamados “celibatários involuntários” que comemoram, nos fóruns online, sempre que um homem mata uma mulher ou até mesmo uma criança). Em entrevistas, o próprio ator vem discutindo formas de combater a masculinidade tóxica, desde que passou a frequentar um grupo masculino dos Alcoólicos Anônimos, após o divórcio da atriz Angelina Jolie, em 2016.

Criado com a mentalidade de que homens não podem demonstrar fraqueza, Pitt se surpreendeu com a honestidade do grupo de apoio. “Era um espaço seguro, quase sem julgamentos, então eu não me julgava tanto… Foi libertador expor os meus defeitos. O fato é que todos nós carregamos dor, ressentimento e perda. Passamos a maior parte do tempo escondendo, mas está lá, em você. Então, se abra.” A abordagem de “Ad Astra” não é inovadora, mas oferece um importante contraponto ao tom de filmes menos atentos ao momento atual, como o novo “Coringa”, em que Joaquin Phoenix interpreta um homem branco que sê como um injustiçado e culpa a sociedade pela própria inaptidão.

Apesar da mensagem oportuna, “Ad Astra” sofre com uma direção um pouco arrastada. A luminosidade baixa da maioria das cenas, os movimentos lentos pela ausência da gravidade e a narração sussurrada de Pitt lembram mais um vídeo de ASMR, perfeito para relaxar, do que um suspense de ficção científica. É surpreendentemente entediante, dado que há tantas mortes no roteiro, uma trilha sonora interessante e algumas boas cenas de ação. Para garantir que o filme faça efeito, tenha uma boa noite de sono e tome um bom café antes de assisti-lo.

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