Netflix: Douglas

Novo stand-up de Hannah Gadsby é mais leve e bobo, mas não é oco.

Por Ieda Marcondes em 04/06/2020

Após o comentadíssimo “Nanette”, a comediante Hannah Gadsby está de volta à Netflix com o especial “Douglas”, batizado em homenagem ao seu cachorro. Logo na primeira parte do stand-up, ela revela a estrutura do show, que assuntos vai abordar e que tipo de piadas vai fazer. “Quando você lê a resenha de uma comédia, há spoilers de várias piadas. Achei isso engraçado e pensei 'por que eu mesma não dou spoiler do meu próprio show?’”, disse a australiana em entrevista. 

Aqui, não vou dar spoiler das piadas ou explicar como elas parecem surpreendentes, apesar do aviso prévio da comediante. “Douglas” funciona como uma boa comédia romântica, prazerosamente previsível no sentido de entregar o prometido, mas nunca desinteressante ou chata. Desta vez, Gadsby é menos contundente e precisa do que foi em “Nanette”, mas ela se dá a liberdade de ser mais boba. “A bobeira foi o principal motivador. Minha ideia era tratar de assuntos sérios com um toque mais leve – sem enfraquecê-los”.

Com uma série de anedotas e observações espirituosas (os trocadilhos devem ter sido um desafio para a legendagem), Gadsby entretém, mas sem deixar de cutucar os seus alvos prediletos. Se você, por exemplo, acha que “Nanette” não é humor, mas uma palestra educativa, em “Douglas”, Gadsby faz uma palestra engraçada, analisando obras de artes e contando uma piada atrás da outra. Toda esta brincadeira com as expectativas serve para desestabilizar as certezas do espectador.

Um dos temas centrais de “Douglas” é o diagnóstico de autismo que Gadsby recebeu já na vida adulta. No show, ela explica como funciona a sua forma de pensar e como o espectro afeta as suas relações sociais. “Não estou aqui para coletar piedade, estou aqui para abalar a sua confiança”, diz Gadsby no show. Por meio do humor – e o show é mesmo engraçado –, a comediante propõe uma forma nova de celebrar a neurodiversidade (e a diversidade como um todo).

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