Netflix: Você Nem Imagina

Comédia romântica de Alice Wu faz releitura lésbica de Cyrano de Bergerac.

Por Ieda Marcondes em 12/05/2020

“Você Nem Imagina” não é uma tradução perfeita do título original, “The Half of It” (literalmente, “a metade disto”). Dirigido por Alice Wu, o filme começa com uma animação que retrata o mito grego da alma gêmea, de quando os humanos tinham quatro pernas, quatro braços e duas faces, mas foram divididos e condenados a vagar pela existência buscando por suas antigas metades. A sequência lembra “Hedwig: Rock, Amor e Traição”, um clássico do cinema LGBTQ+, e a diretora entende do assunto.

Em 2004, Wu desistiu de um emprego na Microsoft para fazer “Livrando a Cara”, o seu primeiro longa-metragem, inspirado na própria experiência com a sua família tradicional chinesa: “Minha mãe sabia que eu era lésbica, mas não era um assunto fácil para ela.” Com uma abordagem humanista e carinhosa, o filme foi bem recebido em diversos festivais, mas Wu só voltaria ao cinema depois de quase 16 anos, com “Você Nem Imagina”, já disponível na Netflix.

Nesta comédia romântica que não tem nada de superficial, Leah Lewis interpreta Ellie Chu, uma adolescente de poucas amizades, que vive com o pai viúvo e fatura uma grana extra escrevendo as redações dos seus colegas de escola. Com contas a pagar, ela acaba aceitando escrever também as cartas de amor de Paul (Daniel Diemer) para a bela Aster (Alexxis Lemire). Logo, as cartas deixam de ser um sacrifício para Ellie, pois as duas têm muito em comum.

A peça “Cyrano de Bergerac”, escrita pelo francês Edmond Rostand em 1897, já foi adaptada para o cinema diversas vezes. Na peça, Cyrano é um homem inteligente, mas com um nariz enorme, que acaba escrevendo as cartas de Christian para a amada Roxane. Com gêneros trocados, é a mesma premissa de “Sierra Burgess É uma Loser” (2018), com Shannon Purser e Noah Centineo, outra produção da Netflix passada em um colegial americano. O filme de Alice Wu, no entanto, é muito mais bem-sucedido.

Em “Você Nem Imagina”, “Cyrano de Bergerac” é apenas um ponto de partida para abordar temas mais complexos como imigração, racismo, homofobia e religião – e, mesmo tocando em assuntos sérios, ainda há uma certa delicadeza na forma como os personagens são retratados. “A busca [pela alma gêmea] é ótima, mas não se trata de encontrar o amor,” diz a diretora. “É a busca que nos faz conhecer as pessoas e nos dá a chance de crescer. O filme trata de três pessoas que se encontram e acabam aprendendo algo sobre elas mesmas."

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