O desleixo de Vidro

“Vidro” traz um Bruce Willis sonolento, dirigido por um Shyamalan cansado, em uma estupidez de 129 minutos.

Por Ieda Marcondes em 17/01/2019

No finalzinho do século XX, a crítica americana apontava uma espécie de renascimento da carreira dramática de Bruce Willis, graças a um novo e talentoso diretor, chamado M. Night Shyamalan. A parceria rendeu alguns dos filmes mais bem sucedidos de ambas filmografias: “O Sexto Sentido” (1999) e “Corpo Fechado” (2000). Vinte anos após o trabalho de estreia da dupla, “Vidro” traz um Bruce Willis sonolento, dirigido por um Shyamalan cansado, em uma estupidez de 129 minutos. Com exceção de James McAvoy, que oferece muito mais em sua performance do que recebe em troca, “Vidro” é uma obra insípida, porcamente concebida e produzida.

Willis reprisa o papel de David Dunn, um homem comum que descobre poderes extraordinários, depois de sobreviver ao descarrilhamento de um trem. Com o auxílio do filho (Spencer Treat Clark, o mesmo de “Corpo Fechado”), Dunn sai pelas ruas para descobrir pistas do sequestro de um grupo de garotas. Por sorte, ele esbarra em Hedwig, uma das 24 personalidades de Kevin (McAvoy), que sofre de transtorno dissociativo de identidade e, sob domínio da “Besta", mantém as adolescentes em cativeiro. Após um breve embate entre Dunn e “Besta”, ambos são detidos e levados para um hospital psiquiátrico com os funcionários mais burros do mundo, onde também está internado o Senhor Vidro (Samuel L. Jackson).

Considerando que, um dos pontos altos de “Corpo Fechado”, é justamente o momento em que Dunn é salvo de um afogamento pelas pessoas que ele mesmo libertou – antes, inclusive, da memorável cena do trem de “Homem-Aranha 2” (2004), em que os novaiorquinos amparam o corpo exausto do herói – sua detenção não faz sentido algum. É justificada no final, mas é inverossímil. Aliás, o que não falta é forçação de barra. Imagine, por exemplo, um quarto de hospício de um paciente perigoso, e em aparente estado vegetativo, com porta-retratos pendurados nas paredes. Não faz sentido, mas tem a sua função, e é tudo o que importa para Shyamalan, que soluciona seus problemas narrativos na base da gambiarra e tapa buracos com flashbacks redundantes, castigando ainda mais a bexiga do espectador.

Os primeiros filmes do diretor indiano, apaixonado por Alfred Hitchcock ao ponto de copiar os seus maneirismos mais vaidosos, tinham enquadramentos refinados e performances inesquecíveis, como a de Toni Collette, em “O Sexto Sentido”. De fato, Shyamalan sempre foi um bom diretor de atores (e de atores mirins), mas até a competente Sarah Paulson, que interpreta a Dra. Ellie Staple, parece perdida, fazendo o que pode com um roteiro desleixado e falas ridículas. Shyamalan parece ter perdido o entusiasmo infantil que sentia pelo cinema, e segue escrevendo e dirigindo porque não há mais o que fazer. “Vidro” é, afinal, como a trajetória de seu diretor: um desperdício de oportunidade.

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