O desperdício de Brightburn: Filho das Trevas

Produção de James Gunn mistura heróis com terror e traz a origem vazia de um Super-Homem psicopata.

Por Ieda Marcondes em 22/05/2019

“E se a origem do Super-Homem fosse um filme de terror?” é a pergunta que “Brightburn: Filho das Trevas” faz e, ao longo dos seus 91 minutos de duração, responde da maneira mais rasa possível. Produzido por James Gunn (diretor de “Guardiões da Galáxia”) e dirigido por David Yarovesky, o roteiro é assinado por Brian Gunn e Mark Gunn – respectivamente, o irmão mais novo de James e o seu primo. A produção em família, no entanto, não torna “Brightburn” mais pessoal ou significativo do que qualquer outro grande filme de terror. Há mais alma na franquia “Invocação do Mal” do que no roteiro dos Gunns.

A premissa é bem conhecida. Brandon (Jackson A. Dunn, que faz uma breve participação em “Vingadores: Ultimato” como o jovem Scott Lang) é um garoto alienígena que caiu na Terra, quando ainda era um recém-nascido, e foi adotado pelo casal Tori (Elizabeth Banks) e Kyle (David Denman). Mesmo tendo recebido uma criação carinhosa em uma fazenda do Kansas, a personalidade de Brandon começa a mudar a medida que ele descobre suas novas habilidades. Neste universo, um grande poder não requer responsabilidade alguma, muito pelo contrário.

Apesar do interessante ponto de partida, a mudança do personagem, de um garoto comum para um vilão psicopata, parece brusca e sem cabimento. Não há, por exemplo, a escalada de sinais e de acontecimentos de “Precisamos Falar Sobre Kevin” ou mesmo de “Psicopata Americano”. É infantil alegar que o menino se torna mau simplesmente porque o poder corrompe, porque ele pode. Não há discussão alguma, diferente do esperado, do que é mais importante para determinar a índole de Brandon: sua natureza ou a sua criação. Ele só fica mau porque trata-se de um filme de terror e precisamos de sustos.

O gênero da “criança maldita” é difícil de engolir porque crianças não são assustadoras. Mesmo quando algum diretor pede que elas façam caras e bocas satânicas, elas são fofas ou levemente inexpressivas – o final de “A Entidade” (2012) me vem à mente. “A Profecia” (1976) funciona não porque o garoto dá medo, mas pela devoção incondicional dos adultos ao seu redor, que se matam por acharem que Damien é mesmo o anticristo. No caso de “Brightburn”, a reação não é provocada pelos personagens ou pela trama, mas pelas competentes cenas sanguinolentas do filme. Há uma cena bastante gráfica de um caco de vidro encravado no olho e uma outra com um maxilar solto do rosto. É quase um “torture porn”.

A maravilhosa Elizabeth Banks, que já provou o seu talento tanto na comédia como no drama, é também desperdiçada, sem motivação suficiente que torne o seu personagem mais substancioso e não apenas mais um alvo em potencial da ira do filho. Aquilo que deveria ser o ápice emocional do filme acaba como uma conclusão vazia, sem qualquer peso para o espectador, já cansado da falta de desenvolvimento da premissa. “Brightburn” é uma oportunidade perdida, que só vale pelo “gore".

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