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Com Ryan Gosling e Sandra Hüller, "Devoradores de Estrelas" é uma ficção-científica com humor, cores e coração. Ênfase em coração.
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Christopher Nolan e Denis Villeneuve – os diretores favoritos de toda uma geração que acredita que o Batman deve ser sisudo e não profundamente ridículo como qualquer homem vestido de morcego – exploraram o gênero da ficção científica com a mesma seriedade de quem retrata a invenção da bomba atômica ou a guerra contra as drogas na fronteira americana.

De fato, por muitos anos, só dois tipos de humor foram ofertados aos “bros” que curtem cinema (mas nunca o bastante para assistirem algo além de blockbusters): o inexistente, como o de Nolan e Villeneuve; e o sarcástico, personificado pelo ator Ryan Reynolds que, em todos os seus filmes, faz o papel de Ryan Reynolds. Tanto no sci-fi como na comédia, “Devoradores de Estrelas” oferece uma terceira via.

Com direção da dupla Phil Lord e Christopher Miller, de “Uma Aventura Lego”, “Devoradores de Estrelas” traz Ryan Gosling (não o Reynolds) como Ryland Grace, um professor de ciências de uma escolinha infantil que é abordado por uma organização governamental para impedir o fim do mundo. Com um doutorado um tanto subutilizado em biologia molecular, ele é o candidato perfeito para compreender – e impedir – seja lá o que está causando a morte do Sol.

Baseado no livro do mesmo autor de “Perdido em Marte”, “Devoradores de Estrelas” propõe um humor mais sincero e menos ácido. Diante das autoridades preocupadas com o planeta, Ryland é um peixe fora d’água. Uma das autoridades é a seríssima Eva Stratt, vivida por Sandra Hüller. Como em “Toni Erdmann”, a alemã encarna uma mulher aparentemente fria, mas que surpreende a todos quando canta – desta vez, “Sign of the Times”, de Harry Styles.

Mais acima falei que Reynolds sempre interpreta Reynolds, mas Gosling também não está muito diferente de como imaginamos que Gosling deve ser na vida real – bonito, engraçado, um pouco desajeitado. Diferente de Reynolds, porém, seu senso de humor não nos parece forçado. Seu personagem permite com que ele manifeste alguma vulnerabilidade e não só escárnio.

Na contramão de “Interestelar” e “A Chegada”, “Devoradores de Estrelas” não tem medo de utilizar cores, mesmo em seus momentos mais dramáticos. É como se, imaginem só, Lord e Miller compreendessem que o cinema é, antes de tudo, um espetáculo visual e que o drama não demanda tons de cinza; que nem tudo precisa parecer adulto (estéril, sem graça e funcional como um apartamento de homem divorciado) para ser levado a sério.

Outra boa decisão é a de utilizar efeitos práticos para dar vida a um alienígena que Ryland encontra no espaço (está no trailer, não é spoiler). Na solidão de sua nave, o cientista tem de conceber uma forma de se comunicar com a criatura para trabalharem juntos contra a extinção de toda a vida. Curiosamente, uma das piadas recorrentes é a de que o alien, assim como Nolan, não compreende o humor terráqueo.

Apesar de tantos elementos bons (Miller, Lord, Gosling, Hüller, cores, senso de humor, efeitos práticos, roteiro de Drew Goddard etc.), há um certo desespero em encantar o espectador com algo fofinho ou engraçadinho o tempo inteiro. A impressão é que, na tentativa de se contrapor à ficção-científica “adulta”, “Devoradores de Estrelas” acabou fazendo uma curva muito fechada na outra direção. Não chega a capotar, mas os pneus já eram – ou os propulsores do foguete, sei lá.

Vi alguns críticos comparando o lançamento com o clássico “E.T.”, de Steven Spielberg – no sentido em que o extra-terrestre também surge como um amigo num momento de necessidade do protagonista. Na minha sessão, contudo, lembrei mais de Bong Joon-ho – especificamente, de “Mickey 17” e “Okja”, isto é, filmes que pegam ainda mais pesado no melodrama da criaturinha em perigo.

Na internet, é muito comum as pessoas inventarem personagens só para sentirem raiva delas (a cantora Chappell Roan, embora exista, virou uma vilã de sessão da tarde por esses dias mesmo). Conceber um bichinho apenas para colocá-lo em situação de risco e, assim, arrancar algumas lágrimas de um público sorumbático é algo que nunca desceu muito bem comigo.

Ainda que o alien de “Devoradores de Estrelas” não tenha focinho, é tão apelativo quanto um Golden atropelado. Esse desespero todo em cativar e comover não seria tão cansativo se o filme não tivesse duas horas e meia de duração – com uma meia horinha final que poderia muito bem ter ficado de fora. Mas o filme está fazendo sucesso e sendo bem elogiado, então vai ver é o meu coração que virou um buraco negro.

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