Netflix: Glass Onion

Daniel Craig retorna com mais um mistério recheado de ricos babacas.

Por Ieda Marcondes em 23/12/2022

Já não me lembro em qual crítica escrevi que, desde que “Parasita” ganhou o Oscar, vários filmes decidiram satirizar os mais ricos, desde “Entre Facas e Segredos” até “Triângulo da Tristeza”, passando por “Casamento Sangrento” e “O Menu”. “Entre Facas e Segredos”, no entanto, estreou antes da vitória de “Parasita”, o que mostra que Ryan Johnson está atento ao zeitgeist.

Lançado na Netflix pouco antes do Natal, o novo mistério do detetive Benoit Blanc pode servir, futuramente, como um bom retrato do que estamos vivendo agora, nas mãos de bilionários abestalhados como Elon Musk. “Glass Onion” tem todos os elementos que tornaram o original um sucesso: assassinato, humor e o espírito transgressor do “eat the rich”.

Se em “Entre Facas…”, o alvo da chacota era uma família disfuncional atraída pela herança do patriarca, agora temos políticos safados, subcelebridades mimadas e empreendedores inescrupulosos – ou seja, novos ricos. Mais uma vez, o personagem de Daniel Craig retorna para elucidar toda a trama, mas a verdadeira protagonista é vivida pela cantora Janelle Monáe.

Tudo começa quando um grupo de amigos recebe um convite para passar o final de semana na ilha privativa do bilionário Miles Bron, onde os convidados devem brincar de “Detetive” e tentar adivinhar quem matará – de mentirinha – o anfitrião. Benoit Blanc estando presente significa, é claro, que até o final da viagem alguém irá morrer de verdade.

Filmes de mistério, tradicionalmente, terminam com uma longa cena de exposição em que o detetive desvenda todo o crime de forma brilhante e o responsável acaba preso. Em, “Glass Onion”, porém, a exposição já começa no segundo ato e se estende até o terceiro. É cansativo? Sim. Gostaria de ver mais cenas com os personagens simplesmente interagindo? Sim.

Dito isso, é impossível não se apaixonar pela forma como os personagens são apresentados, pelo figurino, pela direção de arte e por um roteiro afiado, atual e cheio de vida como uma edição fresquinha do jornal de hoje. Chamar um filme de “atual” é quase um xingamento, uma espécie de lição de casa acerca de um assunto importante, mas “Glass Onion” é divertidíssimo.

 

*SPOILERS*

 

É magnífico que, a princípio, acreditamos que o bilionário será morto porque todos têm motivos para odiá-lo, mas é ele que tira vantagem da posição de vítima para acobertar seus próprios crimes. Que o filme tenha sido lançado enquanto Elon Musk se diz atacado por jornalistas que divulgam “as coordenadas do assassinato” é um milagre.

Até a destruição de obras de arte como forma de protesto foram parar telepaticamente no filme. Vemos a fúria de Helen como uma coisa ingênua e fútil – quebrar estátuas de vidro, como se fossem vidraças de banco, pela simples catarse – mas logo a demolição ganha um propósito lógico e inteligente.

Bilionários redpillados como Musk e outras celebridades “canceladas” se acham muito rebeldes quando desafiam “o sistema” e dizem “a verdade”. O “sistema” é a democracia, a ciência, a decência. E a “verdade" é quase sempre algo que reforça um status quo ultrapassado de séculos de racismo, machismo e nojo generalizado por qualquer tipo de vulnerabilidade.

Ser transgressor não é propor um carro elétrico que explode e atropela pedestres. Não é mandar foguetes para o espaço enquanto os funcionários trabalham por 12 horas e são demitidos quando questionam o chefe. Não é comprar uma rede social pelo bem da “liberdade de expressão” e usá-la para silenciar a imprensa e dar voz aos nazistas.

Não existe bilionário transgressor.

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