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Beau Tem Medo

Estrelado por Joaquin Phoenix, terceiro filme de Ari Aster é um delírio neurótico.
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Na última temporada de “A Maravilhosa Sra. Maisel”, há um episódio em que o filho pequeno da protagonista tem medo de dormir na própria cama. Para reconfortá-lo, seu avô diz que o medo é natural, pois serve como um mecanismo de defesa – afinal, há guerras, acidentes horríveis, tigres que escapam de zoológicos e raios fulminantes. O menino, é claro, fica apavorado.

Assim como o filho da Sra. Maisel, o diretor de “Hereditário” e “Midsommar” entende muito bem o que é sentir medo, mas “Beau Tem Medo” não é um filme de terror como seus predecessores. Ari Aster definiu a sua nova obra como um “Senhor dos Anéis judaico”, comparando a jornada de Frodo até Mordor com a viagem de Beau até a casa da mãe.

Interpretado por Joaquin Phoenix, Beau é um homem paralisado pela ansiedade. Uma longa e desconfortável consulta com seu psiquiatra revela uma criação traumática, embora os detalhes só sejam esclarecidos mais tarde. No dia seguinte, Beau tem de visitar a mãe manipuladora, exímia na arte da chantagem emocional, para “comemorar” o aniversário da morte do pai.

Acontece que Beau mora numa versão surreal da Cracolândia, em que cada figurante encena seu próprio filme, mas tudo representa um perigo, do cadáver esquecido no meio da rua à multidão na calçada que clama pelo suicídio de um homem no topo de um prédio. Por uma sucessão bizarra de acontecimentos, Beau perde o vôo, mas seu pesadelo só está começando.

É importante notar que “Beau Tem Medo” não se passa num mundo real. Trata-se de um delírio neurótico em que todos os piores medos de uma pessoa ansiosa são confirmados. É um filme para aqueles que ficam apreensivos ao passar por um detetor de metal, mesmo sabendo que não carregam uma arma – gente como eu.

Há alguns meses, minha cachorra mordeu uma vizinha. Em questão de segundos, me imaginei processada, forçada pelo condomínio a me desfazer da minha Yuki se quisesse continuar morando no meu apartamento ou, no pior dos cenários, obrigada a sacrificá-la. Tudo foi resolvido com um pedido de desculpas e um vaso de flores.

Aqueles que nunca precisaram de ansiolítico na vida podem não entender o que é conviver com o medo, sempre esperando o pior resultado de cada atitude, cada interação social, por menores que sejam. E se eu abrir uma garrafinha de água antes de pagar e meu cartão for recusado? E se eu não tiver dinheiro? E se o dono do mercado chamar a polícia? E se a polícia me der um tiro?

“Beau Tem Medo” já recebeu algumas críticas bastante negativas. É, de fato, um filme longo, com três horas de duração, e feito para perturbar o espectador, mas quando aceitamos que tudo vai dar errado e sempre da forma mais absurda, é até divertido ver o quanto Beau se ferra. É como reviver as nossas piores neuroses, mas num lugar seguro – o cinema.

Alguns colegas reclamaram da autoindulgência de Aster, disseram que o diretor nunca deveria ter recebido um cheque em branco da produtora A24 apenas para exorcizar os próprios demônios, mas é exatamente isto o que eu espero ver e que se tornou tão raro: um diretor sem qualquer restrição para explorar questões pessoais e que o faz de maneira surpreendente e ousada.

Fora a paranoia constante, há outro aspecto da ansiedade generalizada que “Beau Tem Medo” aborda: o escrutínio de cada ação ou pensamento, um julgamento sem fim de quem nós somos, na tentativa de determinar se somos merecedores ou não de perdão e amor. Se nem mesmo a sua mãe acredita que você é uma boa pessoa, quem irá acreditar?

*

Alguns comentários soltos:

Qual é o trauma de Ari Aster com sótão?

Patti LuPone merece um Oscar.

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