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100% criado por humanos e contrário à inteligência artificial, novo "cozy game" de design de vestidos conquista homens héteros.
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Considerando que o país está em chamas, um joguinho em que você deve criar e costurar vestidos pode parecer uma frivolidade. Mesmo assim, durante a apuração do primeiro turno das eleições, me joguei em “Dressmaker”. Votei logo pela manhã e passar o domingo acompanhando o drama pelas redes sociais só pioraria a minha ansiedade – e, por incrível que pareça, há uma certa nobreza no jogo.

“Dressmaker” é um “cozy game”, ou seja, um jogo com uma proposta totalmente diferente de um “Resident Evil” ou de um “GTA” – sem sustos, sem tiros, sem mortes constantes, sem limitações de tempo, sem adrenalina, sem estresse. Lembro que, uns vinte ou trinta anos atrás, já havia uns joguinhos de flash nesse mesmo espírito, mas o rótulo “cozy game” é relativamente recente – “Stardew Valley” e “Animal Crossing” são alguns dos exemplos mais conhecidos.

Há quem considere até “The Sims” como um “cozy game”, o que eu não concordo. Para mim, um jogo em que o seu personagem pode morrer cozinhando o próprio almoço não me parece muito relaxante, ainda que a simulação também não seja um “Dark Souls”. Há décadas, contudo, ficou estabelecido que jogos violentos e desafiadores são “de menino”, enquanto os mais tranquilos e fáceis de jogar são “de menina”.

Já pelo trailer, “Dressmaker” parecia evidentemente voltado ao público feminino, mas um fenômeno curioso vem acontecendo. Algumas resenhas na loja da Steam são de homens que alegam que compraram o jogo para uma namorada ou esposa, mas que acabaram experimentado e ficaram fissurados. No YouTube, já há vários vídeos de homens héteros jogando “Dressmaker”.

A princípio, eles abordam o jogo em tom de chacota. De maneira performática, esclarecem aos espectadores que não entendem nada de moda ou de coordenação de cores. Mais adiante, porém, começam a levar mais a sério, dedicando tempo considerável na criação de cada peça. Muitos ficam até impressionados quando o vestido fica, de fato, bonito – porque, veja bem, homens não deveriam entender “dessas coisas”.

Em “Dressmaker”, você joga como uma costureira que acaba de abrir uma loja. Suas clientes têm personalidades e exigências diferentes – há certas estéticas e critérios a satisfazer, que vão da cor até o tipo de tecido utilizado. A cada encomenda, as clientes contam um pouco sobre elas mesmas. Em alguns casos, os riscos que elas tomam (ou deixam de tomar) no universo da moda determinam mudanças importantes em suas vidas.

Com cada projeto, o jogador começa tirando as medidas da cliente. Em seguida, é necessário desenhar o croqui, combinando diferentes padrões de decotes, mangas e saias que atendam à cada demanda específica. Ao logo do seu progresso no jogo, o acervo de materiais e possibilidades criativas só aumenta.

O grande trunfo de “Dressmaker”, entretanto, é que, depois de selecionar todas as opções, a roupa não se materializa do nada. É preciso escolher o pano, considerar o preço, quantos metros terá de comprar; cortar o tecido conforme o propósito de cada parte, montar os pedaços cortados sobre o manequim (já adequado às medidas da cliente, é claro) e, por fim, costurar.

É óbvio que um vestido de gala dá muito mais trabalho do que uma saia curta com um top tomara-que-caia, mas essa é a beleza da coisa. “Dressmaker” mostra que o processo criativo – até mesmo de um vestido, algo que muitos consideram como uma bobagem, ou coisa “de mulherzinha” – não é simples. Exige reflexão, repertório, planejamento, precisão e, acima de tudo, paciência. E, mesmo depois desse esforço todo, é prazeroso criar algo bonito.

Há momentos em que, mesmo já satisfazendo todos os critérios da cliente, continuamos experimentando um outro tecido aqui ou adicionando um botão lá. Porque criar não é meramente cumprir um objetivo – não é matar um chefão para passar de fase – mas expressar o que nos agrada, nossas próprias referências e particularidades.

“Dressmaker” é um jogo feito por artistas – de acordo com os desenvolvedores, 100% criado por humanos, e com um posicionamento bastante contrário à inteligência artificial – que permite com que pessoas que nunca se viram como artistas possam também sentir o prazer de criar.

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