Se inscreva no canal do Telegram
Com Seth Rogen, Edward Norton e Penélope Cruz, comédia de Olivia Wilde desfaz o estrago de "Não Se Preocupe, Querida".
Compartilhe:

Para receber todas as novidades, se inscreva no canal do Telegram

“O Convite” começa com uma citação do escritor Oscar Wilde: “Deveríamos estar sempre apaixonados, por isso nunca deveríamos casar.” A frase pode ser de um autor gay, mas em minha sessão (quase cheia, por sinal, em plena segunda-feira), os casais heterossexuais já estavam sintonizados à proposta do filme.

Não há nada mais insidioso, no universo dos relacionamentos convencionais, do que o humor baseado em “eu odeio a pessoa com quem me casei”. No TikTok, são inúmeros os esquetes no estilo “minha esposa é uma megera que não me deixa sair” ou “dei um Playstation 5 de presente para o meu marido e ele me deu uma meia suja” – isto sem falar nos casais que fazem “pegadinhas”, tipo “derrubei o sorvete da minha namorada só para ver a reação dela”.

Sempre me questionei se estas pessoas sabem que não são obrigadas a estarem juntas, que não estão condenadas a uma vida inteira de ressentimento e crueldade recreativa – e, no entanto, elas seguem juntas, por algum motivo inexplicável. Com o casal principal de “O Convite”, é a mesma coisa.

Vivido por Seth Rogen, Joe é um músico frustrado que sente vergonha de morar no apartamento deixado de herança pelos pais. Ao chegar em casa, sentindo dor nas costas, ele larga tudo na entrada e deita no chão. É a esposa Angela, interpretada pela atriz e diretora Olivia Wilde, quem recolhe e guarda os seus pertences. Ele está de mau humor, pois foi obrigado a usar uma bicicleta em seu trajeto – “recomendação do médico, lembra?”, ela diz.

De cara, eu já odeio Joe – ele me lembra o tipo de homem que, se não fosse pela insistência da mãe, namorada ou esposa, não tomaria nem banho, que dirá cuidar da própria saúde. E é claro que ele se ressente por ser “controlado” por Angela, por ser obrigado a tirar os sapatos dentro de casa ou por só poder fumar maconha do lado de fora. Você sabe, o tipo de homem que vive numa perpétua adolescência e que transforma qualquer mulher próxima na chata da relação.

Angela quer a casa apresentável pois convidou os vizinhos do apartamento de cima para jantar, o que é uma enorme inconveniência para Joe, que não precisou se preocupar em preparar nada. Como uma espécie de vingança por ter combinado o jantar sem consultá-lo, ele decide que irá constrangê-la mencionando aos vizinhos que eles fazem muito barulho quando transam – “the world of the heterossexual is a sick and boring life”, diria Edith Massey em “Female Trouble”.

O que salva “O Convite” da profunda antipatia de seus personagens e da banalidade geral do roteiro, que lembra um episódio de “Os Normais” menos dinâmico, são os atores. Rogen e Wilde estão excelentes, ambos com um timing cômico afiadíssimo. A chegada dos vizinhos Hawk e Piña, vividos por Edward Norton e Penélope Cruz, também ajuda a renovar os ares do apartamento em que a trama se desenrola.

Filmes passados inteiramente num único cenário nem sempre são bem-sucedidos, pois acabam lembrando uma peça de teatro mal adaptada e cansam o espectador, mas Wilde mantém a mis-en-scène vibrante o suficiente para não nos causar claustrofobia. Ao mesmo tempo, ela permite com que os momentos dramáticos tenham a duração e o impacto devidos.

Tecnicamente, o único ponto a melhorar é a insistência da trilha sonora, mas “O Convite” é um avanço gigantesco comparado com o filme anterior da diretora, “Não Se Preocupe, Querida” – uma distopia mal-ajambrada, que é mais lembrada pelos diversos escândalos dos bastidores do que pela obra em si.

Após um divórcio mais do que público, em que a diretora recebeu os documentos de custódia dos filhos no palco da CinemaCon, Wilde pode não ter feito as pazes com o ex-marido Jason Sudeikis, protagonista da série “Ted Lasso”, mas reconquistou Hollywood com seu novo filme.

Tags:

Leia também:

Por que tantas produções recentes se inspiram em "O Show de Truman"?
Produzido por Will Ferrell e Adam McKay, “Fora de Série” marca a estreia de Olivia Wilde como diretora.
Com 20 indicações ao Emmy, série com Jason Sudeikis é a bola da vez.
Com Ryan Gosling e Sandra Hüller, "Devoradores de Estrelas" é uma ficção-científica com humor, cores e coração. Ênfase em coração.