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Candidato norueguês ao Oscar, "Valor Sentimental" humilha filme protagonizado por George Clooney ao tratar de temas quase idênticos.
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Nesta temporada de premiações, que culmina com a cerimônia do Oscar em março de 2026, dois filmes tratam de personagens idosos, ambos do ramo do entretenimento, tentando reaver o tempo perdido com as filhas adultas.

Em “Jay Kelly”, disponível na Netflix, George Clooney é um ator egocêntrico, que aceita ser homenageado em um festival na Itália apenas para se reaproximar da filha mais nova, que partiu com os amigos num mochilão pela Europa. É a vez da caçula pois, com a primogênita, a tentativa de reatar os laços foi um desastre.

Em geral, artistas de sucesso não ficam em casa, brincando com os filhos. Viajam sem parar, fazem turnês, participam de coletivas de imprensa, gravam programas de televisão, filmes, músicas, comerciais etc… É uma correria para sustentar a ilusão da relevância e desfrutar dos aplausos – afinal, os quinze minutos de fama agora têm a duração de um TikTok.

Nos bastidores, quem faz tudo isso acontecer é Ron, o agente interpretado por Adam Sandler. Assim como o seu cliente, Ron também sacrifica o tempo que tem com a própria família, mas é para se dedicar aos caprichos do galã. Seu sacrifício nos parece tolerável, pois ele o faz em prol de outrem e não só para acariciar o próprio ego.

E quanto ego há em “Jay Kelly”!

Com direção de Noah Baumbach, que também tem um histórico familiar complicado – era casado com a atriz Jennifer Jason Leigh, quando passou a ter um caso com a atriz e diretora Greta Gerwig, 15 anos mais nova do que ele e 22 anos mais nova (!!) do que a estrela de “Os Oito Odiados” –, o filme com cenas gravadas na Toscana serve como uma luxuosa egotrip do diretor, mesmo não sendo totalmente autobiográfico.

Na busca pela fama, a grande estrela Jay Kelly sabe que decepcionou as pessoas mais importantes de sua vida, que agiu (e ainda age) como um babaca narcisista, uma celebridade típica, mas a adulação de estranhos lhe parece mais preciosa do que o amor das filhas.

Como quem vira as páginas de um álbum de fotografias queridas, ele fica rememorando capítulos de sua vida tão ilustre, inclusive a traição que cometeu em seu primeiro casamento, mas sempre com a benevolência típica de um homem mais velho para consigo próprio.

Ao contrário de “História de um Casamento”, “Jay Kelly” não quer cutucar feridas, então tudo se resolve de maneira muito fácil, numa autoindulgência simplória e palatável ao grande público. Apesar de toda dor que causou, dos relacionamentos que destruiu sem nem perceber, tudo valeu a pena e tudo foi perdoado.

E numa gracinha meio sem graça com atores que gostam de repetir várias tomadas de uma mesma cena, termina dando a entender que, se pudesse, faria tudo de novo. Nem Clooney é carismático o suficiente para fazer este papel funcionar.

Na verdade, “Jay Kelly” só não é um desgosto maior graças a Adam Sandler.

Entre os não-cinéfilos, é uma espécie de meme considerar Sandler como o pior ator do mundo, só porque ele tem o hábito de reunir amigos e parentes em produções sofríveis de ruim. O ator e comediante, porém, já provou o seu talento dramático repetidas vezes – em obras como “Embriagado de Amor”, “Joias Brutas” e “Arremessando Alto”.

Parece que todas as vezes que menciono Adam Sandler, me sinto obrigada a defendê-lo, mas é porque ele é bom mesmo. Melhor do que Clooney.

Em “Jay Kelly”, Ron quer tanto que Jay o veja como um amigo, e não apenas um subalterno, que ele acaba nos convencendo de que o protagonista não pode ser tão babaca quanto aparenta, se é capaz de inspirar tamanha lealdade e dedicação. Deve haver alguma característica decente nele.

Na vida real, a solução que Sandler encontrou para ter uma carreira tão prolífica e não deixar nenhum ente querido na mão foi colocar todo mundo para trabalhar com ele – inclusive a esposa e as filhas. O tempo que passam juntos importa mais do que seja lá o que estejam fazendo. Assim, ele aceita a pecha de pior ator, desde que dedique parte do seu tempo àqueles que realmente importam.

Por sua vez, do outro lado do Atlântico, o candidato norueguês ao Oscar (e que deve receber também uma ou duas indicações para o elenco principal) humilha “Jay Kelly” ao tratar de temas quase idênticos.

Com estreia nos cinemas brasileiros programada para o Natal, “Valor Sentimental” não se concentra tanto na figura do pai, um diretor de cinema chamado Gustav Borg – muito bem interpretado pelo sueco Stellan Skarsgård, mais conhecido em Hollywood por blockbusters como “Duna”, “Vingadores” e “Mamma Mia!”, além da numerosa prole que inclui os atores Bill e Alexander Skarsgård.

De fato, o filme começa com um breve histórico da casa da família Borg que, construída há mais de um século, testemunhou momentos de felicidade e de tragédia de várias de suas gerações. Assim como o cinema de rua de “O Agente Secreto”, a casa é um pedaço concreto de História – apesar da falha estrutural que vem afundando a construção lentamente ao longo dos anos.

E então, o foco de “Valor Sentimental” vai para a filha mais velha de Gustav. Interpretada por Renate Reinsve, voltando a colaborar com o diretor Joachim Trier após “A Pior Pessoa do Mundo”, Nora Borg é uma atriz de teatro que, minutos antes de sua peça começar, está em pleno ataque de pânico. Para que ela não abandone o espetáculo, a produção é forçada a empurrá-la ao palco.

É como se a coxia já soubesse que o pânico dela não tinha fundamento. Pois assim que encarna a personagem, Nora executa o seu trabalho de maneira brilhante. Está claro que ela faz parte do sofrido grupo de artistas cuja sensibilidade é imprescindível à arte, ainda que a percepção aguçada provoque também um constante tormento particular.

Após a morte da mãe de Nora, Gustav reaparece oferecendo um papel em seu próximo filme. Também deixa escapar, contudo, um certo desprezo pelo teatro e pelas escolhas artísticas da filha. “Acho que esse filme vai ser bom para você,” ele diz – o que Nora encara como uma cutucada passiva-agressiva de um pai omisso querendo apenas bancar o bonzinho.

Depois que ela nega o papel, Gustav é homenageado em um festival de cinema (há muitas homenagens para homens brancos em festivais de cinema). Lá, exibem um de seus filmes antigos, um que ele gravou não com Nora, mas com a filha mais nova, quando ela ainda era criança.

Agnes Borg, vivida por Inga Ibsdotter Lilleaas, não seguiu carreira, mas parece mais estável do que a irmã mais velha. Enquanto Nora se contenta em se relacionar com um homem casado (como a protagonista de “Sorry, Baby”, ela só quer sexo e não lidar com sentimentos), Agnes casou e tem um filho pequeno – fato que Gustav também esfrega na cara de Nora, numa tentativa desastrada de encorajá-la a se abrir emocionalmente.

Gustav é um homem seco e, óbvio, sem traquejo social. De presente de aniversário para o neto, um menino de 9 anos, levou dvds de “Irreversível” e “A Professora de Piano” (para quem não viu nenhum, são dois filmes adultos e pesados).

Ele é, no entanto, um artista. Assim como Nora, ele transforma a própria dor em arte. E quando disse que o seu filme faria bem a ela não era num sentido profissional. Foi a forma que ele encontrou de se comunicar com ela e de fazê-la se sentir compreendida.

Há certas tristezas que nem todos são capazes de entender. Quem aceita o papel que Nora recusou é a atriz americana Rachel Kemp, interpretada por Elle Fanning, mas não há método que lhe ajude a compreender as motivações da personagem que Gustav concebeu. Não adianta mudar a cor do cabelo. Não adianta falar inglês com sotaque norueguês.

Há uma citação de James Baldwin que guardo em minhas notas há anos:

“Você pensa que a sua dor e a sua mágoa não têm precedentes na história do mundo, mas aí você lê. Foram Dostoevsky e Dickens que me ensinaram que as coisas que mais me atormentaram eram justamente as coisas que me conectavam com todas as pessoas que estão vivas ou que já viveram. Somente quando encaramos estas feridas abertas em nós mesmos é que podemos compreendê-las em outras pessoas.”

Em “Valor Sentimental”, um pai não se faz presente ao ficar no mesmo cômodo que a filha, mas garantindo a ela que, não importa o que aconteça, ela nunca estará sozinha.

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