Netflix: A Maldição da Mansão Bly

Fora a moda da década de 1980, o mais assustador em “Mansão Bly” é ter de encarar mais um episódio.

Por Ieda Marcondes em 10/10/2020

Já disponível na Netflix, “A Maldição da Mansão Bly” tenta ser muitas coisas: uma antologia assustadora, uma história de amor, uma investigação do que é identidade, de como as nossas memórias nos moldam, e um sucessor digno de “A Maldição da Residência Hill”. Baseada na obra de Henry James (especialmente, “A Volta do Parafuso”), a série de Mike Flanagan traz boa parte do elenco da primeira temporada de volta, mas para contar uma história diferente. Desta vez, toda a ação se passa numa misteriosa mansão inglesa.

Dani Clayton (Victoria Pedretti) é uma professora americana que é contratada para cuidar de duas crianças inglesas, Miles (Benjamin Evan Ainsworth) e Flora (Amelie Bea Smith). Ela sabe que os irmãos perderam os pais em um acidente e que a antiga babá morreu pouco tempo depois, mas não conhece todos os detalhes da tragédia. Na mansão, ela divide o trabalho com a governanta Hannah (T’Nia Miller), o cozinheiro Owen (Rahul Kohli) e a jardineira Jamie (Amelia Eve) – além dos diversos fantasmas que habitam a propriedade histórica.

Apesar das diversas aspirações de “Mansão Bly”, e da tentativa de dar voz aos personagens supostamente secundários, parece que não há material suficiente para preencher nove episódios de uma hora cada sem arrastar o espectador (com uma mão firme no pescoço) por um pastiche repetitivo e extenuante, de efeito semelhante ao do filme “Estou Pensando em Acabar com Tudo”, só que bem mais didático. Fora a moda da década de 1980, o mais assustador em “Mansão Bly” é ter de encarar mais um episódio.

As diversas referências que Flanagan utiliza em sua antologia, que passam por “Os Inocentes”, “O Sexto Sentido”, “Os Outros” e chegam até “Ghost – Do Outro Lado da Vida”, são como os fantasmas que se esgueiram pelos cantos escuros da mansão inglesa, assombrando uma série que só se apequena em comparação com os originais. O roteiro é ruim, os diálogos são forçados, as revelações já não importam muito quando elas ocorrem. Infelizmente, até os sustos são escassos.

Em “Residência Hill”, o drama familiar dá substância à trama desde o início. Há terror, mas há também emoção, o que torna tudo muito mais urgente e doloroso. Já em “Mansão Bly”, para criar uma ilusão retroativa de profundidade, Flanagan reserva o último capítulo da temporada para contar a verdadeira história de amor da série – é muito pouco e tarde demais. Com um projeto estrutural cheio de falhas, a fundação de “Mansão Bly” não suporta o peso de sua própria ambição.

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