O consumo crítico dos cancelados

Dizem que é preciso “separar o artista da obra”, mas a obra é indissociável do artista.

Por Ieda Marcondes em 30/06/2020

Nesta semana, meu plano era publicar uma resenha de “Em Ritmo de Fuga”, dirigido por Edgar Wright – mas o protagonista, Ansel Elgort, acabou de ser acusado de estupro. Sim, o filme de 2017 também conta com o abusador Kevin Spacey, mas a sua carreira está morta. Apesar de ser relativamente conhecido, Elgort está em ascensão. Ele é o astro da refilmagem de “West Side Story”, dirigida por Steven Spielberg, que deve ser lançada no ano que vem. E não sei até que ponto é ético ignorar a dor de uma vítima para fazer uma mera indicação de cinema.

Sim, Edgar Wright não tem culpa. Todas as pessoas que trabalharam no filme (que é divertido) e nunca cometeram crime algum não têm culpa. Estamos num ponto crucial da nossa cultura, um momento para repensar práticas antigas, e não há respostas definitivas de como proceder. Vários atores, diretores e produtores abusaram e agrediram, tudo sem abalos significativos em suas reputações. Não foram impedidos de trabalhar, muito pelo contrário, foram homenageados – até hoje, tem jornalista agressor trabalhando em veículo de renome.

Alguns dizem que é preciso “separar o artista da obra”, mas a obra é indissociável do artista quando ela é calcada no sofrimentos dos outros. Calma. Eu sei que você está fazendo careta. Não estou propondo que ninguém nunca mais assista “Em Ritmo de Fuga” ou “Beleza Americana” (se bem que “Beleza Americana” é ruim com ou sem o Kevin Spacey). Acho, sim, que é um dever meu, como crítica de cinema, não ignorar as práticas mais problemáticas do ramo do entretenimento. Atores que se utilizam da fama para abordar fãs menores de idade é uma delas.

Na minha resenha de “Destacamento Blood”, que não foi exatamente positiva, contei que o Spike Lee foi rejeitado pela maioria dos estúdios, mesmo depois de ganhar um Oscar. Enquanto isso, gente como Mel Gibson segue trabalhando. Posso preferir assistir “Apocalypto” do que “Blood”, mas é preciso lembrar que o Gibson é um racista doido e que, muito provavelmente, não deveria fazer outro filme. “Ah, mas os cancelados não podem nunca mais trabalhar?” Podem, com carpintaria, por exemplo. Não com visões de mundo.

Louis C.K. deveria largar a comédia. Morrissey deveria largar a música. J.K. Rowling deveria largar a literatura. Só para variar um pouco, deveríamos abrir espaço para quem não é idiota, dar o nosso dinheiro – e atenção é também dinheiro – para quem realmente merece. Até lá, seguimos com o consumo crítico dos cancelados, sempre lembrando por que foram cancelados. Na semana que vem, devo resenhar “Sombras da Vida” e já deixo o aviso de que Casey Affleck é um babaca (mas ele aparece pouco no filme, ainda bem).

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