Oscar 2020: O Escândalo

Filme indicado em 3 categorias do Oscar tem a mesma sensibilidade de um tabloide, mas é bem menos provocador.

Por Ieda Marcondes em 15/01/2020

Com um elenco repleto de estrelas e uma história bombástica, “O Escândalo” tinha tudo para ser um dos filmes mais comentados do ano. Infelizmente, o roteiro engraçadinho de Charles Randolph (o mesmo de “A Grande Aposta”) e a direção didática de Jay Roach transformam tudo numa espécie de Telecurso 2000 sobre misoginia e abuso sexual. Baseado em fatos reais, o filme trata das acusações de assédio dentro da Fox News, império da mídia conservadora nos Estados Unidos, e uma das responsáveis pela eleição de Donald Trump.

Nos últimos anos, alguns roteiristas e diretores de comédia tem migrado para o drama. Craig Mazin, responsável pelos roteiros de “Todo Mundo em Pânico 3” e “Todo Mundo em Pânico 4” surpreendeu com a excelente série “Chernobyl”. O terrível Todd Phillips, diretor da trilogia “Se Beber Não Case”, foi indicado ao Oscar por “Coringa”. Jay Roach, por sua vez, tem bastante experiência com o tema do assédio sexual, pois dirigiu os filmes de Austin Powers. Mesmo sem merecimento, “O Escândalo” foi indicado em 3 categorias do Oscar – pois, ainda que o objeto seja feminino, é uma obra feita por homens.

Nicole Kidman interpreta Gretchen Carlson, a primeira figura pública a denunciar Roger Ailes (John Lithgow), o fundador da Fox. Com uma maquiagem perfeita, Charlize Theron encarna a controversa Megyn Kelly. Como Kayla Pospisil, uma personagem fictícia, Margot Robbie cumpre a função narrativa de mostrar o que uma desconhecida era obrigada a fazer para cair nas graças de Ailes. Tanto o roteiro como a direção, porém, não parecem se preocupar com as três mulheres no centro da trama. “O Escândalo” tem a mesma sensibilidade de um tabloide, mas é bem menos provocador.

Com excessão da brevíssima participação de Kate McKinnon, não há tensão aparente entre trabalhar em veículo conservador e lutar por causas consideradas como de esquerda. Em ambos os lados, os acontecimentos traumáticos não parecem mudar as opiniões políticas dos envolvidos. Não há um paralelo entre a participação na eleição de Trump e a perpetuação de um comportamento deveria contrariar os preceitos morais de uma direita evangélica. Sem estes questionamentos, qual é o sentido de fazer um filme como “O Escândalo”? Na vida real mesmo, nada mudou na Fox.

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