Na internet, pelo menos uma vez por mês, alguém reclama de cenas de sexo em filmes e séries, pois seriam “desnecessárias” e não avançam a trama – já é uma queixa tão comum que, em parte, é feita por quem só quer gerar engajamento, o famoso “rage-bait”. Mas acredite, há gente que realmente se incomoda.
Famoso no círculo de comentaristas do YouTube, D’Angelo é um jovem não-binário que discute todo tipo de assunto espinhoso com eloquência e nuance. Sua frase predileta é “duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo”. Quando fala de cenas de sexo, contudo, está no time dos incomodados, alegando uma suposta saturação, que “agora tudo tem sexo”.
Eu, que estou na meia-idade (e nasci no Brasil), lembro de uma época em que a sensualidade estava em todo lugar – nos desfiles de carnaval, em capas de revista, em programas humorísticos e até infantis – mas as cenas de sexo, no cinema e na televisão, começavam com um beijo entre um homem e uma mulher (geralmente, brancos) e logo desviavam para o close de uma cortina esvoaçante.
Filmes como “9 Semanas e 1/2 de Amor” ou “Instinto Selvagem” causavam frisson justamente porque era raro ver o sexo no centro da trama. Afinal, nós crescemos durante a epidemia da AIDS – Cazuza morreu em 1990, Freddie Mercury se foi no ano seguinte e Renato Russo em 96. O sexo era perigoso. Na cultura mainstream, retratar casais homossexuais em momentos de intimidade, então, era impensável.
No final dos anos 1990 e começo dos anos 2000, no entanto, houve uma mudança. Aos poucos, passamos a ver o sexo sendo discutido de maneira franca em plena televisão aberta, com sexólogos como Jairo Bauer e Marta Suplicy. O uso da camisinha era incentivado tanto para evitar doenças sexualmente transmissíveis como gestações indesejadas.
Naquela época, a gravidez na adolescência era comum. Meninas abandonavam os estudos e, de repente, se tornavam mães – todas as minhas amigas morriam de medo de engravidar. Era inédito, portanto, ver o sexo sendo tratado como algo que podia ser feito de maneira segura e com o único propósito de sentir prazer, sem julgamento moral. Veja, a geração anterior à nossa ainda se orgulhava de casar virgem.
A desmistificação do sexo também facilitou uma visibilidade maior da comunidade LGBTQ (ou “GLS”, como era conhecida). Quando foi prefeita de São Paulo, Marta Suplicy participava da “Parada Gay” – depois foi homofóbica num debate com Kassab, mas ainda foi significativo vê-la apoiando o evento como representante oficial da maior cidade do país.
Famílias que nunca conviveram com gays assumidos passaram a assistir programas como “Queer Eye for the Straight Guy” e “America’s Next Top Model”. Ao mesmo tempo, a HBO surgiu com a proposta de tratar de temas adultos, que envolviam sexo, drogas e violência – a série “Six Feet Under” foi importante ao retratar casais gays não como esteriótipos cômicos, mas como personagens complexos.
Nada disso seria possível se o sexo ainda fosse um tabu. Se ainda fosse visto como algo que só deve ser mostrado ou discutido “quando necessário”. O sexo só é “necessário” na procriação. E quando o sexo só serve para procriar, quando o sexo tem de ter uma finalidade, estamos condenando toda prática que não envolva, necessariamente, uma pessoa que produza sêmen e uma pessoa com útero. Todo o resto se torna imoral, pecaminoso, desnecessário.
Para quem cresceu com “Game of Thrones” e “Euphoria”, o sexo pode parecer apelativo, é claro. É uma visão, entretanto, que não contempla todo o percurso histórico que fizemos para chegar aqui. Ninguém é obrigado a assistir “Euphoria” – eu mesma não vi e nem tenho interesse em ver. Independente do meu gosto pessoal, é necessário defender a representação do sexo como uma ferramenta de inclusão e libertação. Isto, sim, é necessário.