Mulher alguma se surpreende quando uma legião de homens surge para defender um ídolo acusado de misoginia. Mesmo assim, fiquei atônita com a reação ao texto de Emily Wilson, tradutora de “Odisseia”, sobre a adaptação do diretor Christopher Nolan – a quantidade de comentários condescendentes pressupondo que a expert (PhD em literatura clássica pela Universidade de Yale) “não entendeu” o blockbuster.
Vi homens supostamente progressistas argumentando que a expert não sabe qual é a diferença entre tradução e adaptação (sim, a tradutora não sabe o que é tradução); que não sabe qual é a diferença entre cinema e literatura (certo, a PhD em literatura não sabe o que é literatura); que ela não seria ninguém sem Christopher Nolan (ela é uma acadêmica bastante respeitada há anos); que ela só quer vender mais livros (realmente, quem escolhe estudar letras só está interessado no dinheiro).
Se o texto fosse assinado por um homem, seria apenas uma questão de opinião. Uma gotinha de negatividade num oceano de elogios efusivos – no Rotten Tomatoes, o filme tem 94% de críticas favoráveis. Mas a tradutora de grego clássico só pode ter se embananado com conceitos que até uma criança de 10 anos é capaz de entender. Uma mulher pode chegar ao Monte Olimpo de sua expertise e ainda ser tratada como uma completa idiota – que esperança há para nós, mulheres muito menos impressionantes?
Os comentários de Emily Wilson não são uma aberração. Vi opiniões parecidas na Vulture, na Time e no The Guardian – além da minha própria crítica. Não é um absurdo apontar o tratamento que Nolan dá às personagens femininas de seus filmes. Há artigos de 2014 que já mencionavam a mania do diretor por “esposas mortas”, isto é, mulheres que só fazem parte da trama para fornecer motivação ao protagonista atormentado.
É que, como Nolan virou alvo da extrema direita por escalar Lupita Nyong’o e Elliot Page, “Odisseia” não pode ser criticado por mais nada – como se Wilson não tivesse sido atacada em 2017, quando se tornou a primeira mulher a traduzir o poema épico. É deprimente que, quase uma década após o lançamento, ela tenha de passar por mais um ciclo de ataques. E, desta vez, com microagressões disfarçadas de ativismo.
Um dos argumentos no texto de Wilson é justamente o tokenismo da adaptação cinematográfica, o esforço simbólico para parecer inclusivo e acabar reservando pouco mais de dois minutos para que Nyong’o e Page deem vida aos seus personagens – algo que ela compara ao estereótipo do “melhor amigo negro”. Nada mais coerente que o defensor de Nolan também se utilize de causas que não está realmente preocupado em defender só para poder atacar mulher.
Veja, quando eu falo em “defensor de Nolan”, não estou me referindo a cada um dos fãs do diretor (não estou falando de você), mas àqueles que, de fato, estão exibindo um comportamento misógino. Não é misógino discordar da opinião da tradutora ou de qualquer outra mulher, mas acreditar que ela está menos apta do que você para refletir uma obra relacionada à área dela é, sim, misoginia. Desmerecê-la para aplacar a sua insegurança é, obviamente, misoginia.
Muitas pessoas se sentem injuriadas quando algo que elas amam é criticado. O propósito da crítica, porém, não é fazer você gostar menos do filme ou mesmo de te impedir de ir ao cinema. Como acadêmica, é de se esperar que Wilson utilize o conhecimento que ela inegavelmente tem para contextualizar as escolhas artísticas do diretor – que, por sua vez, deve estar nadando em montanhas de moedas de ouro tal qual Tio Patinhas.
Por que um diretor que está dominando a bilheteria e sendo amplamente celebrado pela crítica tem de ser uma unanimidade absoluta? O mundo já pertence a vocês, não é o suficiente?