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Adaptação do poema épico da Grécia Antiga, "Odisseia" é o mais novo espetáculo ensurdecedor do diretor Christopher Nolan.
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Sob os comandos de Odisseu, os tripulantes de seu navio cobrem os ouvidos com cera para resistir ao canto mortal das sereias. Mas eu só tinha um pacote de lenços de papel. Rasguei dois pedaços e enfiei nas orelhas.

O volume em minha sessão de “Odisseia” (uma cabine de imprensa numa sala IMAX, com a presença da distribuidora, que atestou a fidelidade da exibição) era tão alto que eu sentia o meu osso esterno vibrar dentro do peito. Meu relógio sinalizou:

“Ambiente barulhento: os níveis de som atingiram 90 decibéis. Cerca de 30 minutos neste nível podem causar perda auditiva temporária.”

Não é a primeira vez que recebo este aviso numa sala de cinema, mas “Odisseia” é barulhento do início ao fim, ou seja, por quase 3 horas. Em vários momentos, vi também outros espectadores tampando os ouvidos.

Entendi que esta era a intenção do diretor Christopher Nolan – furar os tímpanos de alguém com tamanha grandiosidade.

Reconheço que sair exaurida e atordoada da sessão (há também uma cena com luzes piscantes que me fez, momentaneamente, cobrir parte da minha visão com as mãos) não é condizente com uma análise “justa”. É raro, contudo, um filme me causar o desejo de passar, pelo menos, uma semana trancafiada num mosteiro com o mais rigoroso voto de silêncio e não acho que devo omitir uma reação tão forte.

Esse ataque aos sentidos se adiciona ao aborrecimento do embate cultural que antecedeu a estreia – por semanas (meses?), racistas reclamaram da escalação de Lupita Nyong’o como Helena de Troia; transfóbicos reclamaram da escalação de Elliot Page como o soldado Sinon. São as queixas de sempre, com as desculpas de sempre.

O mais entediante dessa guerra cultural toda, entretanto, é que parte da esquerda ama jogar xadrez com pombo e lá se vão infinitas postagens afirmando que Lupita é, sim, bonita – como se já não fosse óbvio para qualquer pessoa bem intencionada e com a capacidade de enxergar.

Perdidas nesse tumulto todo, estão também as críticas mais razoáveis à falta de precisão histórica com relação ao figurino dos soldados. Da minha parte, não me incomodo com anacronismos numa adaptação de um poema que envolve deuses, ninfas e feiticeiras. Me incomoda, porém, a feiúra e a falta de coerência dentro da estética escolhida (quando há alguma).

A armadura preta mais estilizada, cujo capacete deve ter sido moldado sobre o rosto de um “looksmaxxer”, não conversa com o uniforme mais “normal” do resto dos soldados – também me incomoda a aparência mais puxada para Roma do que para Grécia. Já a coroa de Telêmaco, interpretado por Tom Holland, parece comprada na Shein. Cada escolha visual é um adendo.

Na história do cinema, há inúmeros planos que são relembrados repetidas vezes ao longo das décadas – não pela ação contida em cada cena, mas puramente pela beleza da composição. A silhueta de Vivien Leigh contra o céu alaranjado de “E O Vento Levou”; o sino à beira do desfiladeiro de “Narciso Negro”; o padre enquadrado pela luz da janela em “O Exorcista”… Não há nada que se aproxime disto no suposto espetáculo de “Odisseia”.

As praias do Mediterrâneo são bonitas, o mar é naturalmente majestoso, uma cidade destruída pelo fogo é sempre impactante – tudo isto é verdade. Mas o diretor não tenta filmar estas unanimidades de maneira minimamente interessante. Na verdade, Nolan parece totalmente desinteressado nas imagens que ele mesmo produz.

É o mesmo estilo realista (sombrio, adulto, estéril, sem graça) que ele aplica a tudo que faz, mas em “Odisseia” é ainda pior. De repente, me vi com saudades de “Imortais” (2011), um filme ruim (repito, estou ciente de que é ruim) do indiano Tarsem Singh, mas de visual marcante, inspirado em pinturas barrocas.

Nolan é tão avesso à fantasia que até o seu Ciclope é uma criatura cinza, genérica, que não inspira medo nem pena. De “Odisseia”, a única imagem que permanece comigo pertence ao brevíssimo segmento de Circe (interpretada pela magnífica Samantha Morton), com quem Odisseu (Matt Damon) parece gastar apenas dois minutos.

Li “Odisseia” há mais de dez anos, mas me recordo que o que mais me chamou a atenção foi ver como os homens eram emotivos, como se debulhavam em lágrimas e se abraçavam sempre que perdiam um companheiro. Já na versão de Nolan, há uma ou outra lacrimejada discreta, mas as mortes não importam muito. Se morrem dois, oito ou dezesseis, tanto faz. São apenas figurantes.

Nolan parece amar o dilema do bonde, o exercício hipotético em que devemos escolher sacrificar uma pessoa para salvar cinco. Seus heróis são sempre homens atormentados pela culpa (muitas vezes, por conta de alguma mulher com pouquíssimo tempo de tela), mas que ainda são considerados como heróis, pois são aqueles que tomaram as “decisões difíceis”. Ele nunca se vê refletido no coitado que está amarrado no trilho, mas apenas naquele que puxa a alavanca.

As múltiplas participações femininas também são resumidas ao máximo – Zendaya, como a deusa Atena, está lá apenas para lançar um olhar reprovador de vez em quando; Charlize Theron, como Calipso, não se importa tanto assim se Odisseu fica ou vai embora; Circe, então, é reduzida a uma bruxa rancorosa que muda de ideia num instante.

A única mulher que ganha um destaque maior é Penélope, interpretada por Anne Hathaway. Sua leitura da personagem, no entanto, é mais chorosa e não tão astuta quanto a original. Aqui, gostaria de indicar mais um filme ruim: vejam como Juliette Binoche e Ralph Fiennes interpretam Penélope e Odisseu em “O Retorno” (2024), a riqueza de emoções que estes atores maduros transmitem – todo o resto do filme é péssimo, mas os dois são brilhantes.

Ao longo deste texto, mencionei vários títulos porque, no fundo, sinto que o espectador que se arrebata com o que Nolan oferece só pode ter comido das pétalas da flor de lótus e não se lembra que há coisa melhor – mais bonita, mais complexa, mais emocionante – até mesmo em filmes muito menos ambiciosos. Pois este é o único espetáculo que o diretor tem a oferecer: sua enorme e ensurdecedora ambição.

É preciso recordar.

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