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Série da Apple passada numa ilha misteriosa oferece comédia com elementos de terror, ou terror com elementos cômicos.
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Em alto mar, um pescador conversa com um amigo pelo rádio do barco. Ele conta que a esposa andava esquisita e distante até que, um dia, se deparou com a mala arrumada na porta de casa – foi neste momento, ele diz, que decidiu terminar tudo. “Parece que ela já tinha terminado,” o amigo responde. Logo em seguida, a comunicação é cortada, a energia cai e um tremor perturba a pequena ilha de “Widow’s Bay”.

Já na primeira cena do primeiro capítulo, a série dá o tom de uma uma comédia com elementos de terror – ou de um terror com elementos cômicos. É o pior momento possível para a ilha ficar sem luz pois o prefeito Tom Loftis (interpretado por Matthew Rhys, de “The Americans”) aguarda um jornalista do New York Times, que pode escrever sobre a cidadezinha e reanimar o turismo local.

Muitos vem se referindo ao lançamento da Apple como um “Tubarão” da perspectiva do prefeito que insiste que não há o que temer nas praias de Amity. Com a diferença de que Widow’s Bay (ou “Baía da Viúva”) já carrega séculos de crimes chocantes e tragédias pitorescas que o prefeito tenta minimizar. A caça às bruxas? Os assassinatos cometidos por um palhaço? Aquele episódio de canibalismo? Tudo exagero da mídia.

“Widow’s Bay” opera no reino dos clichês – clichês que extravasam a mitologia americana e abarcam até mesmo elementos mais universais como o da mulher de branco perambulando por uma estrada solitária à noite. A princípio, todos esses causos supostamente sobrenaturais possuem explicações razoáveis. O prefeito, que não nasceu na ilha, enxerga o povo como um bando de caipiras supersticiosos. Mas e se os clichês se tornaram clichês por serem, de certa forma, verdadeiros?

E se Widow’s Bay for mesmo amaldiçoada?

Há uma tensão deliciosa entre um forasteiro que nunca lidou com nada de estranho na vida e uma população tão acostumada com o bizarro que dizer algo como “é seguro passar pelo antigo hospital, você só não pode parar” é parte de uma conversa como qualquer outra. Entre todos, Wyck (Stephen Root, magnífico na série “Barry”) é quem mais tenta fazer o prefeito aceitar a possibilidade do inexplicável.

Além de contar com Root no elenco, “Widow’s Bay” é um verdadeiro desfile dos chamados “character actors”, ou seja, atores que não costumam interpretar protagonistas, mas que tornam personagens secundários tão memoráveis, ou às vezes até mais, quanto os principais – no Brasil um exemplo de “character actor” seria Tânia Maria, a Dona Sebastiana de “O Agente Secreto”.

A série vem sendo comparada com “Tubarão”, “Twin Peaks” e, é claro, toda a obra de Stephen King, mas o quarto episódio, em particular, me lembrou “Tales from the Crypt”. Há uma narrativa principal guiando toda a série, mas até o momento, há também um componente episódico – como se cada capítulo trouxesse uma história com começo, meio e fim, assim como “The Pitt”.

No primeiro episódio, um pescador desaparece com a neblina misteriosa que circunda a ilha. Já no segundo, o prefeito tem de passar a noite numa pousada que os locais afirmam que é assombrada. No terceiro, ele encontra a mulher de branco numa estrada. E no quarto, uma funcionária da prefeitura promove uma festa estranha com gente esquisita…

Em geral, gosto quando as séries são lançadas assim, aos poucos. Gosto de habitar esses universos por um período prolongado, em vez de consumir uma temporada inteira numa madrugada insone. “Widow’s Bay”, no entanto, torna a espera por um novo mistério, um novo elemento sobrenatural, quase dolorosa – mas é uma dor boa.

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