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Em terror de Curry Barker, um jovem apaixonado deseja o amor de sua amada e, infelizmente, tem o desejo realizado.
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Não é segredo que, entre priorizar o próprio prazer ou respeitar a autonomia da mulher, nove entre cada dez homens escolherão o próprio prazer – e sem qualquer traço da culpa que nós carregamos sempre que ousamos, mesmo que minimamente, nos colocar em primeiro lugar. De “As Esposas de Stepford” até filmes mais recentes como “Acompanhante Perfeita”, o verdadeiro pesadelo da mulher é ser forçada a uma vida de sujeição. Na realidade, é pior que a morte.

Então, qual é a grande novidade de “Obsessão”?

Com um orçamento de apenas US$750 mil, a aposta da produtora Blumhouse abocanhou US$44 milhões na semana de estreia. Com direção do youtuber Curry Barker – que se junta a um grupo de outros cinco criadores de conteúdo, pelo menos, que já lançaram ou vão lançar produções de terror nos cinemas –, “Obsessão” trata de um jovem apaixonado que deseja o amor de sua amada e, infelizmente, tem o seu pedido atendido.

A expressão “pata do macaco” se refere a um conto do autor inglês W. W. Jacobs, publicado em 1902, em que o protagonista faz três desejos a uma pata de macaco encantada, apenas para lidar com as piores consequências possíveis quando os desejos se realizam – como, por exemplo, receber uma quantia em dinheiro, mas às custas da morte de um ente querido.

Num dos episódios mais famosos de “Além da Imaginação”, exibido pela primeira vez em 1959, há outro caso emblemático de “pata do macaco”, o de um homem que deseja ter tempo para ler os seus livros em paz, sem ser interrompido por terceiros – e, assim, se vê como o único sobrevivente de um ataque nuclear.

Em “Obsessão”, Bear quer se declarar à amiga de infância Nikki e acaba comprando um souvenir numa loja mística – um “salgueiro dos desejos”, que nada mais é do que um graveto que deve ser quebrado ao fazer um pedido. Na loja, porém, a vendedora já avisa o rapaz que não aceita reclamações.

Com medo de ser rejeitado, ele pega o graveto e pede que Nikki o ame mais do que qualquer pessoa no mundo. O problema é que, ao que tudo indica, ela nunca viu Bear dessa forma. Para que a amarração dê certo, ela é obrigada a deixar de agir como a Nikki que Bear conhecia – a Nikki que nunca ficaria com ele.

Os desejos dela, portanto, são suprimidos em favor do desejo dele – sua única prioridade é o amor de Bear, mais nada. Interpretada com vigor por Inde Navarrette, Nikki passa a agir de maneira errática. Ela se torna insegura, grudenta, possessiva, ciumenta. Seu humor vai de um extremo ao outro em segundos, como se a alma às vezes retornasse ao corpo e repudiasse o relacionamento.

Pela mistura de terror com comédia baseada em constrangimento, o que mais escutei na sala de cinema foram risadas. Eu também ri. Ainda que “Obsessão” tome a perspectiva mais cômica de Bear, o verdadeiro desconforto não é o do cara sendo envergonhado pela namorada maluca, mas o estupro contínuo que Nikki sofre – um terror particular que, pela incapacidade se colocar no lugar dela, Bear só compreende muito tarde.

Volto a perguntar, qual é a novidade? A trama é manjada, a moral é óbvia, mas esta história batida ganha outra conotação em 2026. Em dado momento, Bear começa a questionar se o amor de Nikki é verdadeiro. Intrigado com o “salgueiro dos desejos”, ele procura por respostas numa versão de ChatGPT. Mais adiante, depois que o filme larga mão da comédia e mergulha de cabeça no terror, ele retorna à loja mística e esbraveja “como vocês podem vender isso!?”

Em “Obsessão”, a “pata do macaco” não serve somente para acusar o desejo masculino de impor a própria vontade sobre a da mulher, mas faz alusão também à adoção leviana de um produto sabidamente perigoso, pela simples promessa de que irá realizar todos os nossos comandos – um produto que, na vida real, é também permeado pela misoginia do Vale do Silício.

Afinal, é mais fácil namorar uma assistente de IA do que uma mulher que seja capaz de dizer “não”.

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