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Do norueguês Kristoffer Borgli, "comédia romântica" com Robert Pattinson e Zendaya utiliza o mau gosto para chamar a atenção.
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O norueguês Kristoffer Borgli tem um quê de Gloria Perez, autora das novelas “Barriga de Aluguel” e “O Clone” – uma paixão pelo tabu aliada à sutileza de uma maritaca presa numa biblioteca. Em “Doente de Mim Mesma” (2022), uma mulher busca por atenção fingindo uma doença grave. É fácil reconhecer o seu desejo por demonstrações de piedade nas redes sociais, mas a sátira descamba numa versão sem graça de “Zoolander”.

Já “O Homem dos Sonhos” (2023), sua primeira produção com o selo da A24, tentou pegar carona no frisson semi-irônico em torno de Nicolas Cage – “O Peso do Talento”, em que o ator interpreta ele mesmo, fora lançado no ano anterior. Inspirado num meme da era da internet discada, “O Homem dos Sonhos” remete a Charlie Kaufman e ataca a cultura do cancelamento, mas sem nada de significativo a agregar.

Nesta semana, estreia “O Drama” – novo filme do diretor que, apesar do título, é meio que uma comédia romântica de humor negro(?) estrelada por Robert Pattinson e Zendaya. No trailer oficial, uma montagem fofinha mostra o casal Charlie e Emma às vésperas do casamento, mas algo não revelado deixa o noivo com frio na barriga. Em dado momento, o termo “aceitação radical” é mencionado.

No Brasil, a distribuidora sugeriu sutilmente que os críticos tentassem falar do filme sem dar spoilers, para que os espectadores sejam também surpreendidos. Considero como um spoiler a informação de que o personagem de Bruce Willis, em “O Sexto Sentido”, está morto desde o começo. O que acontece em “O Drama” é “apenas” aquilo que coloca toda a história em movimento e não uma reviravolta dos últimos quinze minutos.

Também acho indigesta a ideia de incentivar a ida ao cinema com a ilusão de uma comédia romântica dos anos 1990 apenas para surpreender, como numa emboscada, com um assunto delicado e bastante real – sobretudo nos Estados Unidos. Alguns artigos estrangeiros já estão abordando o assunto, mas nem todo mundo vai ficar sabendo a tempo de evitar.

Então, para quem quiser, aí vai o “spoiler” de “O Drama”…

 

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Durante um jantar com amigos, Emma (Zendaya) confessa que, na adolescência, planejou um massacre semelhante ao de Columbine, algo que Charlie nem imaginava. Ela conta que foi armada à escola, mas desistiu no último segundo pois um outro massacre, em outro local, já tinha começado e que, portanto, ela não receberia atenção da mídia – Borgli, por sinal, fez algo parecido em “Doente de Mim Mesma”, também envolvendo um tiroteio.

Numa filmografia ainda incipiente, o diretor e roteirista já concebeu duas personagens femininas loucas por atenção – uma que simula uma condição rara por puro vitimismo e uma adolescente negra que recorre à violência. Borgli apela ao estereótipo da negra raivosa, mas sem qualquer interesse em explorar questões de raça, assim como Gloria Perez. Ao denunciar a cultura do cancelamento, entretanto, o norueguês centraliza a sua narrativa num homem branco de meia idade. Por que será?

Desencavaram um texto escrito por Borgli em 2012. Nele, o cineasta defende o seu relacionamento com uma garota de 16 anos, quando ele já estava com 27:

“Bill Murray e Scarlett Johansson retratam um romance com uma grande diferença de idade, ele com 53 e ela com 18, em ‘Encontros e Desencontros’. Em ‘Ghost World’, a diferença entre Steve Buscemi e Thora Birch é enorme, mas foi revendo ‘Manhattan’, de Woody Allen, que a minha postura mudou[…]Se um filme feito em 1979, no qual o personagem interpretado por um Woody Allen de 42 anos tem uma relação pública com uma menina de 17, de maneira exclusivamente positiva e sem causar qualquer controvérsia na época, por que então o meu relacionamento – com uma diferença bem menor – não pode ser considerado como ‘aceitável’ em 2012? Preferi dar razão a Woody Allen do que aos meus amigos.”

Depois que li o trecho, as peças se encaixaram. A insistência juvenil em temas provocativos e da voga; a necessidade constante de chocar, de incitar debates rasos; o ímpeto pouco velado de desacreditar mulheres ou de pintá-las como megeras inflexíveis, como a personagem de Alana Haim; o próprio “age gap” entre Pattinson e Zendaya; as cenas em que Charlie se imagina abraçando a versão adolescente de Emma, como se namorasse uma menina de 15 anos; e, por fim, Charlie achar interessante pensar nela desta forma…

Apesar de todos esses sinais, não estou obrigando ninguém a “cancelar” Kristoffer Borgli pelo conteúdo problemático de seus filmes – ele adoraria ser “cancelado” pelo o que, muito provavelmente, enxerga como um gesto de ousadia, de repúdio às normas de uma sociedade moralista. É preferível “cancelar” o provocatéur porque, mesmo com a mais óbvia intenção de indignar, “O Drama” só surpreende no quão convencional e previsível acaba sendo.

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