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"O Telefone Preto 2" vai direto ao cerne da violência que vitimiza, em especial, crianças e mulheres.
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Muitas vezes, o true crime trata de tragédias com a mesma reverência de alguém que recita uma lista de compras – “foram dois meninos, quatro meninas e seis adolescentes” – enquanto os assassinos em série são celebrados em alguma minissérie questionável de Ryan Murphy. Em minha crítica para a Folha, elogiei “O Telefone Preto” justamente por fazer o oposto e dar voz às vítimas (ainda que fictícias) do sequestrador interpretado por Ethan Hawke.

Desta vez, o diretor Scott Derrickson e o roteirista C. Robert Cargill tentam ir direto ao cerne da violência que vitimiza, em especial, crianças e mulheres. Em “O Telefone Preto 2”, que se passa quatro anos após os acontecimentos do original, o sobrevivente Finney (Mason Thames) se tornou um adolescente agressivo e que só encontra refúgio na maconha. Quando a irmã Gwen (a talentosa Madeleine McGraw) tenta conversar sobre o ocorrido, ele é arredio.

Se em pleno 2025 ainda é considerado um tabu que os homens demonstrem qualquer vulnerabilidade – os Estados Unidos são comandados agora por um septuagenário cuja única diretriz é convencer a si mesmo de que ele é o mais forte, o mais poderoso, o mais temido, o mais formidável etc. –, imagine trinta ou quarenta anos atrás.

Quando tentamos suprimir os nossos sentimentos, contudo, eles não vão embora – só ficam mais incrustados nas profundezas. Eles se alastram. Contaminam. Infeccionam. E quando a dor se torna insuportável, os homens têm a tendência (bastante documentada pelo próprio true crime) de descontar na mulher mais próxima – Gwen já era uma vítima disto no filme anterior, quando apanhava do pai bêbado ao mencionar a habilidade herdada de sua finada mãe.

Vista como a esquisitona do colégio, Gwen é sonâmbula e tem sonhos premonitórios. Ela sonha com crimes cometidos num acampamento de inverno, onde sua mãe chegou a trabalhar na juventude, e decide ir até lá para desvendar o que está acontecendo. Finney acaba indo junto, mais para protegê-la do que para explorar o passado. E é assim que o sequestrador, mesmo morto, ressurge do inferno – como uma espécie de Freddy Krueger, um pesadelo que brota do subconsciente dos irmãos.

“O Telefone Preto 2” articula muito bem a lógica onírica simulando uma mudança de formato. É como se trocassem a câmera de última geração por uma Super 8mm (uma câmera caseira, lançada pela Kodak em 1965, muito utilizada em “montagens de infância”), ou seja, de baixa definição e com os craquelados típicos – um resquício estético, talvez, de “A Entidade”, terror também dirigido por Derrickson e estrelado por Hawke.

No gênero, Derrickson fez fama por não poupar nem mesmo as crianças em seus filmes. O próprio “O Telefone Preto 2” não é indicado a menores de 18 anos, ainda que a sua mensagem seja especialmente importante aos adolescentes – isto é, os meninos devem explorar os seus sentimentos e devem enfrentá-los. Não adianta fugir. Medo não é motivo de vergonha. E eles não precisam lutar sozinhos.

A chamada “epidemia da solidão masculina” se tornou um problema social não porque as mulheres não se sintam solitárias, mas porque homens solitários se tornam homens violentos. Porque a cultura masculinista não admite qualquer sinal de fraqueza. É preferível, portanto, substituir o medo e a tristeza pela raiva e a violência.

Enquanto Gwen sofre, sozinha, os efeitos de seus pesadelos na própria pele (literalmente), Finney se sente mais seguro esmurrando algum colega da escola. A solidão feminina é um problema pessoal. Já a solidão masculina é um problema de todos.

E depois de ser espancada, cortada, lançada contra a parede, sufocada, queimada etc., também cabe à Gwen o trabalho de explicar ao irmão e ao pai que eles precisam aprender a lidar com o passado, que é necessário conversar e encarar as emoções de frente, antes que um sentimento pior se sobreponha a todos os outros. A jornada é dupla, tripla, quádrupla…

A intenção por trás de “O Telefone Preto 2” é boa, diferente da execução. As atuações são o forte, mas o filme submete os seus ótimos atores às cenas burocráticas – tanto de explicação das regras do “jogo”, de como funcionam os poderes de Gwen, como do histórico do sequestrador.

A cada nova informação revelada sobre o antagonista, o universo do filme fica menos e menos interessante, como se estivessem apenas cumprindo a sugestão de algum produtor de que era necessário “expandir a mitologia”. Nos anos 2000, os conservadores americanos adotaram o lema “fatos não se importam com os seus sentimentos”. Mas em “O Telefone Preto 2”, fatos não importam. Só os sentimentos.

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