Em 2022, Jair Bolsonaro havia emparelhado todo o sistema para impedir a vitória de Lula. Fizeram de tudo, e mesmo assim perderam. Neste ano, parecia que muitos já tinham se esquecido de como foi viver a pandemia sob um governo que só topava comprar vacinas se pudesse tirar alguma vantagem por trás. A Globo queria o retorno das bets; as empresas de tecnologia queriam o afrouxamento das leis ambientais; Donald Trump queria extrair tudo o que pudesse do Brasil… E mesmo assim, perderam.
Foi uma vitória difícil, quase impossível. Nas redes sociais, vimos pessoas de todas as nacionalidades comemorarem esse feito conosco – até os argentinos sob o regime de Javier Milei, que o candidato Flávio Bolsonaro tanto queria emular. Da noite para o dia, viramos referência internacional em luta antifascista e o “janonismo” (referente ao canal de André Janones, “Exército do Lula”) passou a ser divulgado mundo afora como um guia de resistência contra as forças da extrema direita.
A grande lição do “janonismo” – se é que podemos chamar de “lição” algo que todo mundo já sabia, mas que a maioria simplesmente não colocava em prática – é não engajar com o conteúdo produzido pelo inimigo. Parte da esquerda, no entanto, depende desse engajamento movido pela bile que é tão favorecido pelo algoritmo, mesmo que isto prejudique a todos nós. Afinal, as métricas fantasiosas do Twitter (jamais chamarei de “X”) viciam tal qual uma bet qualquer.
Há anos, porém, discutimos os conceitos de “dar palco” versus “furar a bolha”. Muito antes do “janonismo”, já havia uma ideia generalizada de que Jair Bolsonaro, por exemplo, só chegou à presidência porque o programa “CQC” jogou um holofote nas barbaridades que ele dizia, permitindo com que mais pessoas se aglutinassem ao seu redor. E mesmo assim, muitos continuaram “dando palco” a figuras como Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato.
Na base do berro, Janones conseguiu fazer com que um grande número de pessoas parasse de agir em detrimento próprio – e, assim, narrativas do lado de lá foram abafadas, sufocadas. Apesar das evidências (ganhamos a eleição, porra), ainda há quem não entenda muito bem o que é para compartilhar ou não. Alguns por uma dúvida genuína e outros que, para continuar explorando a lógica algorítmica, estão agora se fazendo de sonsos. De toda forma, é uma incapacidade de pensar de maneira crítica. Precisam de um “general” que diga a elas o que fazer.
É claro que “não dar palco” não significa fingir que o problema não existe, mas também há formas mais vantajosas de “furar a bolha” do que passar o dia inteiro comendo cocô no Twitter, jurando de pé juntos que a sua timeline já está perfeitamente personalizada – não está, não é algo que a Big Tech permite. Achar que uma rede social (cujo conteúdo é ditado por bilionários com interesses explícitos de atrapalhar o nosso processo democrático) não nos afeta é anticientífico.
Penso que o impulso mais danoso, e muito promovido pelas plataformas, é o do “olha isso, que absurdo”. Ficamos chocados com alguma fala e compartilhamos sem refletir que efeito isso terá. Por exemplo, o caso dos empresários que estão ameaçando demitir funcionários ou alegando que irão parar de doar mantimentos à caridade. É um problema que existe, de fato, mas ao difundir essas falas sem qualquer complemento fora “olha isso, que absurdo”, estamos só adicionando ao terrorismo.
A intenção óbvia por trás dessas postagens é espalhar medo e impedir com que as pessoas se manifestem – porque foi a manifestação política, tanto nas ruas como na internet, que nos levou à vitória. Também serve como propaganda, porque ainda que uma parcela vá achar esse tipo de posicionamento um absurdo, uma outra irá demonstrar apoio, inclusive financeiro. Em vez de divulgar essas marcas, é mais produtivo compartilhar materiais que expliquem o que é assédio eleitoral e quais são os devidos canais de denúncia. Postar print não é denunciar.
Sempre criticamos a irresponsabilidade do jornalismo declaratório, do tipo que publica qualquer bobagem dita por algum imbecil, sem qualquer tipo de checagem ou contraponto. Assim sendo, nós devemos oferecer o contraponto, mas não como uma reação ao conteúdo criado pela direita, e sim como algo que partiu da gente. Imagine um muro de vidro – estamos vendo o que eles estão fazendo, mas eles não conseguem contrabandear alguma coisa pelo vão de uma grade.
É válido compartilhar notícias factuais, que descrevam acontecimentos. Não é inteligente, entretanto, difundir artigos de opinião, com link e tudo, apenas para comentar “olha isso, que absurdo”. É a quantidade de acessos que recebem que fazem com que os jornais se dediquem ainda mais ao viés opinativo. Ficamos todos atônitos diante da impotência da imprensa brasileira em apurar a fuga de Flávio Bolsonaro, mas as redações foram todas enxugadas, porque o que dá dinheiro não é repórter, é colunista. É a Malu Gaspar.
Na economia da atenção, o tempo que gastamos com determinada mídia define como será o ambiente sociocultural dos próximos anos. Se tudo o que nos provoca raiva gera tração, é isto o que irão nos empurrar mais e mais. Nós precisamos determinar o tipo de conteúdo que queremos ver, as pautas que queremos discutir. E para isto, não podemos reagir impulsivamente. É preciso repensar os nossos hábitos, questionar as narrativas apresentadas e, por fim, criar o mundo que a gente quer – ser verdadeiramente criativo.
Ainda que tenham sido úteis nesta eleição, todas as associações da esquerda com “exército”, “missão”, “general” etc. me causam ojeriza porque soldados são treinados para obedecer ordens sem questionar. Para que o status quo nunca seja desafiado, soldados são desencorajados a exercer o pensamento crítico. E quando fazemos isso, estamos abdicando daquilo que há de mais precioso na humanidade, que é a capacidade de pensar, analisar e imaginar algo diferente, algo melhor.