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Em nova ficção-científica, Steven Spielberg tenta lidar com o fim da ilusão dos Estados Unidos como os "good guys".
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“Contatos Imediatos de Terceiro Grau” começa com uma cena passada num deserto do México, onde um grupo de americanos tenta conversar com os locais em espanhol, apesar do barulho quase ensurdecedor de uma tempestade de areia. “Más despacho, por favor,” um americano pede. Logo em seguida, surge o francês Sr. Lacombe, vivido pelo cineasta François Truffaut, que também precisará de um intérprete.

“O sol surgiu à noite e cantou para mim,” diz um dos mexicanos, ainda perplexo com o que testemunhou – o que ele quer dizer? Em 1977, o diretor Steven Spielberg utilizou a ficção científica (gênero ao qual retornaria várias vezes, com “E.T.”, “A.I. – Inteligência Artificial”, “Minority Report” e “Guerra dos Mundos”) para tratar da linguagem, isto é, o esforço tanto individual como coletivo pelo qual nos fazemos entender.

No clímax do filme, os humanos se comunicam com alienígenas por meio de um verdadeiro espetáculo de luzes e sons – as matérias-primas do próprio cinema. Dessa forma, Spielberg faz uma declaração de amor ao nosso desejo irremediável de compreender o que nos cerca, de nos tornarmos completos através do entendimento. Afinal, nós recorremos à arte justamente para reconhecer o que que já existe em nós mesmos, mas não sabemos como expressar.

Se “Contatos Imediatos” trata da dor e do prazer da linguagem, o novo scifi de Spielberg tenta estabelecer o conhecimento como um direito universal. Sai a semiótica e entra a epistemologia.

Em “Dia D”, Daniel Kellner, interpretado por Josh O’Connor, trabalha com segurança cibernética e quer divulgar informações confidenciais ao público; Margaret Fairchild, papel de Emily Blunt, é uma meteorologista que desenvolve a habilidade de compreender qualquer pessoa, em qualquer língua. Em linguagens diferentes, a mensagem que os dois carregam é a mesma: “não tema o desconhecido”. Juntos, eles têm de transmitir o que sabem à toda humanidade, mas uma organização liderada por Noah Scanlon, vivido por Colin Firth, irá fazer de tudo para impedi-los.

Mesmo que tirassem o nome do diretor dos créditos, está mais do que na cara que “Dia D” é criação de Spielberg. Há perseguição, forças misteriosas que operam para ocultar a realidade, uma visão romântica da infância e, é claro, aliens. A letra “D” do título se refere ao termo “disclosure”, que significa divulgação ou revelação. No contexto do filme, tem a ver com a desclassificação de arquivos sigilosos, como os memorandos sobre objetos voadores não identificados que o Pentágono liberou recentemente.

Em “Contatos Imediatos”, no entanto, os humanos olhavam para as luzes no céu com otimismo e esperança. Já em “Dia D”, há um tom de tristeza e consternação diante da evidência de vida extraterrestre.

Se aproximando dos 80 anos, Spielberg é talvez o nome mais reconhecível de todo o cinema americano. Com George Lucas, estabeleceu a lógica do blockbuster Hollywoodiano e ajudou a construir uma imagem dos Estados Unidos que ainda permeia o imaginário do resto do planeta. Em pleno século 21, contudo, o mundo já não cai mais no mito do excepcionalismo americano.

Em mais de uma cena, a revelação de que aliens existem – isto não é um spoiler, é a premissa do filme – é acompanhada de lágrimas. Há duas interpretações cabíveis: os personagens choram ao perceber que tudo que eles tinham como fato estava errado, que os americanos não são, afinal, o povo escolhido de Deus e que há outros seres no universo; ou choram por ver como esses visitantes foram tratados em solo americano. Nos dois casos, é o fim da ilusão dos Estados Unidos como os “good guys”.

Ainda que Spielberg faça alusão ao que há de pior na América de Donald Trump (toda notícia relacionada à imigração é de ranger os dentes), ele não se rende ao cinismo – isto também é uma marca registrada. Não me parece que o diretor apela ao humanismo para forçar alguma narrativa geopolítica, mas por realmente acreditar na capacidade que os humanos têm de compreender. Em “Dia D”, o que nos faz avançar como sociedade é o acesso irrestrito ao conhecimento.

Acreditar que a maldade só existe por conta da ignorância é, talvez, uma ideia um tanto ingênua da humanidade, um artefato empoeirado do século anterior, mas Spielberg sempre foi um sentimental – basta ver “A.I.”, o choque entre a frieza de uma produção iniciada por Stanley Kubrick e a pieguice da conclusão Spielbergiana.

De todo modo, apesar dos vários problemas de “Dia D” (por que os dois não publicam os documentos todos na internet? É para a gente acreditar que Josh O’Connor e Emily Blunt têm a mesma idade? Por que os malvados não foram até ******?), é bom saber que ainda há membros da elite de Los Angeles que não encomendaram bunkers para o fim do mundo.

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