No futebol e na arte, o brasileiro é catimbeiro e fominha. No ano passado, tripudiamos (com razão) “Emilia Perez” e massacramos (com razão) a atriz Karla Sofía Gascon nas redes sociais; em 2026, fizemos uma corrente de energia negativa para, caso Wagner Moura não ganhasse o Oscar, que Timothée Chalamet também perdesse. O ator de “Marty Supreme” não venceu – e nem o Brasil. Mas não devemos ficar tristes.
Passamos por décadas sem qualquer tipo de reconhecimento por parte da Academia ou da imprensa estrangeira. Vimos o cinema nacional minguar no governo Bolsonaro. De repente, embalamos dois anos seguidos com indicações históricas – indicações não só de “filme internacional”, mas nas categorias de atuação e de “melhor filme”, pau a pau com obras de cineastas celebrados.
Vejam bem, neste ano, o único outro país que também teve a sua produção indicada a “melhor filme” foi a Noruega, com “Valor Sentimental”. Nós concorremos contra o cinema norueguês – contra um filme de Joachim Trier, um diretor já conhecido pela Academia, e com um elenco em que quatro de seus atores receberam indicações. Nós fomos (e somos) muito fortes.
Não se trata de “ser indicado já é uma vitória” – é uma questão de contexto histórico. O Brasil nunca fez isso antes. Nunca chegou neste patamar. Wagner Moura passou por todo o circuito de talk shows, o horário nobre da televisão americana, falando do nosso cinema, da nossa história, de como “O Agente Secreto” surgiu em resposta ao fascismo. Isto é gigante.
Ainda que o Brasil não tenha vencido nada no Oscar, nós devemos é festejar muito. Foi um ano recheado de produções muito boas. Os dois grandes vencedores da noite, “Uma Batalha Após a Outra” e “Pecadores”, são sucessos de crítica e de bilheteria – o que tem sido uma raridade nos últimos anos da premiação. Ambos são filmes originais, ousados, de teor político e com atuações memoráveis.
Vimos dois grandes artistas sendo reconhecidos. De um lado, Paul Thomas Anderson, que já deveria ter levado um Oscar algumas décadas atrás – seja por “Boogie Nights”, “Sangue Negro” ou “Trama Fantasma”. De outro, um jovem negro que, além da obra de arte magnífica que criou, conseguiu um acordo inédito com a Warner Bros., isto é, reaver os direitos de “Pecadores” após vinte e cinco anos.
Algum tempo atrás, quando Toni Collette foi esnobada por “Hereditário”, quem poderia imaginar que teríamos um filme de vampiros com a maior quantidade de indicações da história do Oscar? E que também venceria as estatuetas de roteiro original e ator? De fato, dos quatro prêmios destinados às atuações, metade foi para filmes de terror – gênero que raríssimas vezes foi sequer considerado. Nem “Frankenstein” saiu de mãos abanando.
Na animação, a Disney/Pixar perdeu o seu monopólio de vez. A performance de “Golden” pelas coreanas EJAE, Audrey Nina e Rei Ami, de “Guerreiras do K-Pop”, foi um dos momentos mais aguardados da noite. As homenagens aos artistas que perdemos não foram apressadas. Billy Crystal e Barbra Streissand tiveram tempo para homenagear Rob Reiner e Robert Redford. Pularam Brigitte Bardot. Bem feito.
No Oscar 2026, não houve vitória vergonhosa. Não teve “Green Book”. Basicamente, todo mundo que venceu mereceu estar ali – assim como outros que também mereciam. Não há motivo para ninguém ir buscar o martelo que o personagem de Moura menciona em “O Agente Secreto”. We will always have Recife.