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Não é feminismo retratar toda violência cometida por uma mulher (sempre linda e de coração puro) como um ataque perfeitamente justificado.
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Muitos anos atrás, ouvi dizer que um crítico profissional (que já faleceu) ensinava aos próprios alunos que não era necessário assistir um filme inteiro para falar dele, que bastava ver apenas quinze minutos do início e mais quinze minutos do final. Sempre pensei nisto como um exemplo de falta de integridade – uma malandragem não só com as obras, mas com o próprio público.

Há pouco tempo, tive de sair de uma sessão vinte minutos antes dela acabar. Mesmo tendo visto a maior parte do filme de mais de duas horas e meia de duração, nem registrei a assistida no Letterboxd. Afinal, não posso avaliá-lo se não o vi inteiro. Só posso repercutir “impressões”, que nunca poderiam ser consideradas como críticas razoavelmente fundamentadas.

Faço todo esse preâmbulo para assegurar a minha própria consciência – algo que nem todos parecem possuir – de que não estou enganando ninguém. Estou admitindo, portanto, que este texto não é uma crítica, mas uma impressão geral sobre três séries que eu não completei e nem pretendo. Não vou discutir detalhes técnicos, mas algo muito mais difuso. Uma tendência de mercado que parece ter contaminado essas produções, todas elas lançadas recentemente.

A primeira série é “Monstro: A História de Lizzie Borden”. Já tinha desistido de acompanhar qualquer coisa relacionada à figura de Ryan Murphy por volta de 2017, quando arrisquei assistir “Feud”. Já naquela época, me pareceu evidente que o produtor não se interessa em representar casos reais com um mínimo de respeito e ética – uma constatação minha que, ano após ano, ele só reforçou.

A coletânea “Monstro” trata de serial killers da vida real, mas sempre da maneira mais escandalosa e sensacionalista possível, ignorando até mesmo os desejos dos familiares das vítimas. “A História de Lizzie Borden” é a primeira temporada dedicada a uma assassina mulher e a abordagem escolhida pelo roteirista Ian Brennan é assombrosa de ruim.

Para sanitizar Lizzie Borden e transformá-la numa espécie de heroína feminista(!?), é criado todo um histórico de abusos que justificariam os assassinatos cometidos. Vale lembrar, no entanto, que o seu envolvimento nas mortes do pai e da madrasta nunca foi comprovado, mas “Monstro” até estabelece uma conexão estapafúrdia entre ela e Aileen Wuornos, condenada por matar sete homens na década de 1990.

Minha picuinha com “Monstro”, porém, não é a total falta de responsabilidade para com os fatos, embora isto seja um problema recorrente, e sim a tentativa de transformar Lizzie e Aileen (inexplicavelmente, também metem Elizabeth Báthory no meio) em ícones queer e da luta pelos direitos das mulheres. Mas esta é a maluquice esperada de alguém associado a Ryan Murphy. Fui ingênua em achar que esse revisionismo “girlboss” fosse um caso isolado.

Cada episódio da nova adaptação de “Carrie”, clássico de Stephen King transformado em série por Mike Flanagan, começa com um breve compêndio sobre mulheres perseguidas por praticarem bruxaria ou espiritualismo. Este recurso mais do que didático serve para firmar Carrie numa longa linhagem de vítimas da sociedade, para que o espectador não tenha sombra de dúvidas de que ela é a mocinha injustiçada.

Durante uma entrevista, Flanagan disse:

“Foi um desafio porque ninguém seria capaz de amar uma personagem tanto quanto a gente ama para daí vê-la assassinando tantas pessoas de propósito. A culpabilidade da Carrie se tornou uma questão principal… Como a tragédia pode se desenrolar de uma maneira em que ela continua responsável, mas sem torná-la um monstro?”

Essa preocupação não é algo que passa pela cabeça de alguém que compreende e aprecia o gênero do terror – nós amamos monstros com muita facilidade e Carrie seria, talvez, a mais fácil de amar. Essa é, na verdade, a fala de um executivo tentando tornar o seu projeto mais palatável ao maior número possível de pessoas (começando pela aparência da jovem atriz, que mais uma vez não bate com a descrição do livro).

Pessoas “normais”, que não entendem como alguém poderia gostar de terror, não compreendem como é possível amar o monstro. Assim, a única forma de conquistar esse público menos acostumado à ambivalência (honestamente, vá ler um livro que não seja “Harry Potter”) é transformando vilões em vítimas perfeitas. Na série, Carrie é praticamente Jesus Cristo, ela só foi corrompida por más companhias. Durante o massacre do baile, ela cede o controle do próprio corpo, literalmente, para outra pessoa. Assim, ela permanece pura e inocente.

Isto é de uma violência mais brutal do que qualquer filme de terror, incluindo as franquias de “O Albergue” e “Jogos Mortais”. O que Flanagan está efetivamente nos dizendo é que nós só somos passíveis de amor quando somos perfeitos – ou melhor, perfeitas. Porque todas as três séries que menciono aqui foram criadas por homens e têm mulheres como protagonistas.

Em “Crystal Lake”, as primeiras mortes de Pamela Voorhees (também interpretada por uma atriz mais jovem e mais bonita do que a de “Sexta-Feira 13”) ocorrem em legítima defesa. No segundo episódio, antes de conseguir agredir um cara que havia lhe provocado momentos antes, um outro personagem aleatório o atinge primeiro. É como se a série morresse de medo de retratar uma assassina como má.

Na chamada “era de ouro da televisão”, quando séries como “Sopranos”, “Mad Men” e “Breaking Bad” surgiram, não havia esse receio todo. Tony Soprano, Don Draper e Walter White cometiam atrocidades e, logo em seguida, estávamos rindo com eles, chorando por eles. Por que os homens podem ser complexos e nós não? Não é feminismo retratar toda violência cometida por uma mulher (sempre linda e de coração puro) como um ataque perfeitamente justificado.

Mais cruel ainda é mudar essas personagens que nós já conhecemos e que não careciam de tantas justificativas.

O diretor Guillermo del Toro afirmou, uma vez, que os monstros de seus filmes são atos de resistência:

“Porque há um momento em que existir da forma como você é, sem fazer concessões – e monstros têm de ser assim, pois eles não conseguem mudar quem eles são – é um ato de resistência. Não se dobrar às forças que te dizem o que você deve ser, o que deve fazer, ou o que não deve fazer, ou qual é o seu valor de acordo com a sociedade.”

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