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Onde estão os filmes originais?

Por que o cinema está dominado por refilmagens, sequências e derivados?
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Há alguns dias, viralizou no Twitter um vídeo do ator Matt Damon explicando por que certos tipos de filmes não são mais feitos. Ele diz que, algumas décadas atrás, os estúdios não precisavam ter um lucro gigantesco assim que os filmes fossem lançados nos cinemas porque, alguns meses depois, contariam também com a receita da venda de DVDs.

Como exemplo, ele fala de “Minha Vida com Liberace”, filme dirigido por Steven Soderbergh em que Damon interpreta o amante do famoso pianista, vivido por Michael Douglas. O orçamento era de US$25 milhões e mais US$25 milhões foram gastos só na divulgação. Para não dar prejuízo, o drama teria de abocanhar US$100 milhões, que seriam divididos com os exibidores.

De repente, uma produção de proporções medianas sobre um romance entre dois homens se tornou um risco financeiro enorme – mesmo com um diretor renomado e atores famosos atrelados ao filme. É por isto que, cada vez mais, as megaproduções baseadas em alguma propriedade intelectual conhecida vêm dominando os cinemas.

Em 1993, quando o primeiro “Jurassic Park” arrasou quarteirões, ele dividia espaço com filmes como “O Fugitivo”, “A Firma”, “Sintonia de Amor”, “Uma Babá Quase Perfeita”, “Proposta Indecente”, “Na Linha de Fogo”, “Aladdin”, “Risco Total” e “Questão de Honra” – uma lista diversa, que inclui suspense, ação, comédia, drama, romance e animação infantil.

Em 2018, entre os dez filmes mais assistidos, só há um original, “Bohemian Rhapsody” (que só atraiu público graças aos fãs da banda Queen). Todos os outros são sequências, derivados ou baseados em quadrinhos, como “Vingadores: Guerra Infinita” ou “Jurassic World: Reino Ameaçado”. O gênero é quase sempre o mesmo: ação com piadinhas.

É difícil apontar quando foi que o entretenimento ficou tão homogêneo. Em 2008, quando a Marvel deu início ao seu multiverso, os cinemas já estavam repletos de continuações como “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, “007 – Quantum of Solace” e “As Crônicas de Narnia – Príncipe Caspian”.

Refilmagens e sequências sempre existiram no cinema. Em 1948, com o “O Céu Mandou Alguém”, John Ford refilmou o próprio filme que fizera em 1936. Após o sucesso de “Frankenstein”, em 1931, a Universal lançou “A Noiva de Frankenstein”, “O Filho de Frankenstein”, “O Fantasma de Frankenstein” e tantos outros.

É só no século 21, contudo, que os filmes originais começaram a desaparecer do cinema comercial. Não por coincidência, a venda de DVDs caiu 86% nos últimos treze anos, dificultando o lançamento de obras mais “arriscadas”, que poderiam ter uma segunda chance para conquistar o público. 

Um dos casos mais conhecidos é o de “Blade Runner – O Caçador de Andróides”, que foi um fracasso de bilheteria em 1982 e, após o lançamento em VHS, alcançou o status de filme cult – que acabou rendendo a sequência “Blade Runner 2049”, dirigida por Denis Villeneuve, mais de três décadas depois do original de Ridley Scott.

Com a facilidade do streaming, muitos espectadores se desfizeram de suas coleções de DVDs e pararam de consumir mídia física. Há anos, os especialistas alertam que a mídia digital é efêmera – o que ficou ainda mais evidente agora, com a HBO Max retirando filmes e séries de seu catálogo que não estão disponíveis em qualquer outro lugar.

Antes mesmo da bolha do streaming começar a estourar, a Netflix já era muito criticada por não ter clássicos em seu acervo. Quando os filmes não estão disponíveis de maneira legal, a pirataria se torna a única opção, mas a não ser que você procure os títulos mais populares, já é difícil encontrar produções lançadas nos anos 2000.

A Netflix já declarou que não vai mais investir em projetos pessoais como “O Irlandês”, de Martin Scorsese, e que agora prefere gastar US$200 milhões em blockbusters que desaparecem da mente do espectador assim que os créditos finais sobem, como “O Agente Oculto”, com Ryan Gosling e Chris Evans.

Em um ensaio de 2021, o próprio Scorsese se disse preocupado com o efeito do streaming no cinema. Para ele, o termo “conteúdo” foi usurpado por conglomerados que não entendem nada de arte e nem se preocupam em entender. Todas as imagens em movimento são consideradas iguais, seja um filme de David Lean, o vídeo de um gato, um comercial do Super Bowl etc..

O espectador é tratado como um consumidor e a arte, submetida a algoritmos, é desvalorizada. Para o diretor que é co-fundador da Film Foundation, organização sem fins lucrativos que restaura e distribui filmes negligenciados, não podemos depender da indústria para proteger a sétima arte. 

Mais do que um mero negócio, filmes representam a nossa cultura e a nossa memória. Depositadas nas mãos de um punhado de bilionários sem qualquer apreço pelo cinema ou pelo trabalho alheio – animadores descobriram pela internet que suas séries foram recolhidas pela HBO Max –, estamos fadados à falta de imaginação.

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