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Oscar 2019: A Favorita

Um dos líderes na corrida ao Oscar, "A Favorita" renova a representação feminina em filmes de época.
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Indicado em dez categorias do Oscar, inclusive melhor filme, roteiro original, atriz principal (Olivia Colman) e atrizes coadjuvantes (Rachel Weisz e Emma Stone disputando a mesma estatueta), “A Favorita” retrata um triângulo amoroso entre três das mulheres mais influentes do início do século 18. Herdeira distante do trono britânico, Anne se tornou rainha em 1702, aos 37 anos – sob o seu domínio, Inglaterra, Escócia e Irlanda se tornariam o Reino Unido – e viveu cheia de problemas graves de saúde, inclusive 17 gestações fracassadas (o único filho a sobreviver morreu aos 11 anos de idade).

Sozinha e doente durante a maior parte de seu reinado, Anne (Colman) fica vulnerável à manipulação de Lady Sarah Churchill (Weisz), sua dama de companhia e amiga de longa data – além de ancestral de Winston Churchill. Em troca de uma enorme influência política e administrativa, Lady Sarah satisfaz todos os desejos da rainha, inclusive as suas necessidades sexuais e emocionais. Até que a jovem Abigail (Stone) chega na corte e, de forma maquiavélica, tenta tomar o lugar de Lady Sarah, criando uma série de intrigas ao estilo de “Ligações Perigosas”.

Dirigido pelo grego Yorgos Lanthimos (de obras mais esquisitonas como “O Sacrifício do Cervo Sagrado”, “O Lagosta” e “Dente Canino”), “A Favorita” é o seu filme mais acessível até então – mas não deixa de ser estranho aqui e ali, com lentes olho de peixe, que distorcem as laterais dos frames, e uma nobreza que faz dancinhas absurdas. Neste caso, porém, a bizarrice serve para retratar uma corte entediada e decadente, que promove corridas de patos nos aposentos do palácio ou brinca de atirar frutas em um Lord pelado. Para a Rainha Anne, no entanto, não há como recorrer ao escapismo de uma Maria Antonieta. Em seu quarto, ela mantém 17 coelhos de estimação, como substitutos dos filhos perdidos. Com dificuldade de andar e enxergar, ela afunda em episódios de ansiedade e depressão.

Escalada para substituir Claire Foy como a Rainha Elizabeth II na série “The Crown”, Olivia Colman é uma atriz versátil, pouco conhecida fora do Reino Unido, que vai da comédia escrachada ao drama mais sisudo com a facilidade de quem atravessa uma rua. Em “A Favorita”, seu sofrimento é tragicômico. Sem grandes movimentos corporais, as mudanças de humor da personagem transparecem nos gestos mais sutis e nas variadas entonações de voz. É mesmo um trabalho digno de Oscar – mas, até o momento, Glenn Close vem abocanhando boa parte dos prêmios.

Muito diferente de seu papel em “O Lagosta”, Rachel Weisz interpreta uma Lady Sarah autoritária, mas honesta, que não consegue mentir nem mesmo para agradar a rainha. Já a personagem de Emma Stone, em uma performance nunca vista e com um respeitável sotaque britânico, prefere fazer elogios dissimulados. Ambas foram indicadas na categoria de atriz coadjuvante. Lanthimos chegou a declarar que se sentiu esquisito por escolher apenas Colman como candidata ao Oscar de melhor atriz principal, dado que as três são excelentes e se destacam ao longo do filme todo.

A atuação é, claramente, o carro-chefe de “A Favorita”, mas a direção de arte, o figurino e a fotografia (com muitas cenas à luz de velas) também são impecáveis. O roteiro escrito por Deborah Davis e Tony McNamara traz frescor aos diálogos, aposenta clichês de virgens envergonhadas e rejuvenesce todo o gênero do filme de época. Mesmo não sendo historicamente correto, Lanthimos parece concordar com alguns historiadores que acreditam que a Rainha Anne foi injustiçada por séculos de representações machistas. “A Favorita”, enfim, retrata mulheres como membros da raça humana, em toda a sua complexidade.

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