E eu vou ter pena de bilionário?

Arte é propaganda e os bilionários estão sufocando os artistas.

Por Ieda Marcondes em 29/06/2023

Na sexta temporada de “Black Mirror”, o criador da série satiriza a própria Netflix. Em “Sou de Virgem”, da Amazon Prime Video, o diretor Boots Riley ataca o capitalismo. Críticas voltadas à lógica do mercado, veiculadas em plataformas de streaming que ditam práticas administrativas pouco responsáveis, revelam a indústria do entretenimento em 2023.

Em meio à greve dos roteiristas, que exigem condições de trabalho mais dignas, foi revelado que o responsável pelo sucesso “Round 6”, série coreana que fez história no Emmy de 2022, abriu mão dos direitos intelectuais e não recebeu pagamentos residuais. “Ganhei o bastante para colocar comida na mesa, mas não fiquei rico,” disse Hwang Dong-hyuk.

De acordo com uma reportagem do Los Angeles Times, graças a “Round 6” (ou “Squid Games”, como ficou conhecida internacionalmente), o valor de mercado da Netflix aumentou em US$ 900 milhões – no entanto, o roteirista e diretor da série, que custou apenas US$ 21 milhões para ser produzida, só viu uma parcela diminuta desse dinheiro em suas mãos.

Enquanto os filmes de super-heróis movimentam bilhões há mais de uma década, os criadores dos quadrinhos mal conseguem pagar as contas. Ed Brubaker, criador do Soldado Invernal, recebeu um cheque de US$ 5 mil dólares pelo seu trabalho. Na estreia de “Capitão América 2 – Soldado Invernal”, seu nome nem constava na lista de convidados.

Há anos, a Disney vem dependendo cada vez mais do CGI, até mesmo para cenas banais, porque os artistas que criam os efeitos computadorizados não são protegidos por um sindicato. São equipes pequenas em relação à quantidade de trabalho, que acumulam centenas de horas extras e precisam lidar com mudanças constantes até o último segundo.

Nos últimos tempos, todas as mazelas da indústria foram personificadas na figura de David Zaslav, CEO da Warner Bros. Discovery, que também adquiriu a HBO Max, e que vem fazendo de tudo para arruinar todas as marcas associadas ao seu império. Zaslav inaugurou a prática de remover filmes e séries da HBO para abater impostos, o que já vem sendo copiado por outras plataformas.

Mesmo alienando diretores prestigiados e desapontando acionistas, Zaslav é o CEO mais bem pago de Hollywood – recebeu quase US$ 500 milhões nos últimos cinco anos, o que equivale ao salário médio de um roteirista multiplicado por 348. Por parte desses conglomerados, não há mais o desejo vaidoso de ganhar um Oscar ou de fazer um clássico, mas apenas o intuito inabalável de acumular uma fortuna ainda mais obscena.

Em “Sou de Virgem”, há uma cena em que o poder de persuasão de uma jovem negra faz com que um bilionário, muito parecido com Elon Musk, repense todas as suas crenças – algo ainda mais absurdo do que a premissa de um protagonista com quatro metros de altura, interpretado por Jharrel Jerome. Infelizmente, a vida só imita a arte quando convém.

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