Em sua turnê de entrevistas para promover “Odisseia”, o diretor Christopher Nolan recitou a versão da tradutora Emily Wilson da primeira linha do poema grego: “Me conte sobre um homem complicado”. Depois de assistir a adaptação cinematográfica, Wilson escreveu um artigo, intitulado “Um Homem Descomplicado” – a acadêmica não viu nada de complexo no Odisseu que ele concebera.
Em minha crítica, mencionei que o personagem interpretado por Matt Damon era mais um homem atormentado pela culpa, mas ainda tratado como um herói, pois foi quem tomou as “decisões difíceis”. Como Oppenheimer, ele é um gênio responsável por inúmeras mortes. Nolan, porém, nunca se interessou pelas consequências da bomba atômica ou pelo colapso da Idade do Bronze, seu objeto de estudo é a autocomiseração do protagonista.
Por algum motivo, o diretor britânico é fascinado pela psique do “grande homem que fez algo horrível”, mas de uma maneira quase que totalmente desassociada do ato em si. Assim, o autoflagelo é apenas mais uma faceta para admirarmos – vejam o enorme fardo que o herói carrega! – e não um verdadeiro sentimento de culpa. O pesar não é pesaroso o suficiente.
Essa sensação de chute no peito, que não existe em “Odisseia”, está no novo “A Morte de Robin Hood”. Vivido por Hugh Jackman, Robin é agora um velho solitário, atormentado pelas lendas criadas em torno do seu nome. Os boatos sobre o seu heroísmo e altruísmo só embelezavam uma série de roubos e assassinatos brutais – todos cometidos em benefício próprio.
Aqui, há um forte contraste entre o real e o mito. Na busca pela glória, Robin cometeu atrocidades que o filme nunca tenta justificar ou amenizar. Não há a desculpa da guerra ou qualquer indício de alguma intenção nobre que pudesse explicar o seu passado – seus atos são mesmo imperdoáveis.
Visualmente, “A Morte de Robin Hood” é ainda mais cinzento que “Odisseia”, mas neste drama de escala muito menor que o blockbuster de Nolan não há fantasia ou elementos fantásticos. Trata-se, justamente, de um choque de realidade, ou seja, da desmistificação do personagem literário. Faz sentido que seja cinza.
Ferido, Robin acaba sob os cuidados da Irmã Brigid (Jodie Comer), que desconhece a sua verdadeira identidade. Protegido pelo anonimato, ele pode decidir que tipo de homem quer ser no tempo de vida que lhe resta. Durante a sua recuperação, ele acaba vislumbrando um caminho em que a felicidade mundana é muito mais valiosa do que a imortalidade da glória masculina.
Com direção de Michael Sarnoski, de “Pig – A Vingança” e “Um Lugar Silencioso – Dia Um”, “A Morte de Robin Hood” carrega uma melancolia genuína. Jackman, que já havia interpretado um herói decadente em “Logan”, assume os próprios atos numa mistura de desprezo e profunda vergonha. Sua culpa soa como uma dor praticamente insuportável – e não há nada de heroico nesta dor.
Ainda que “A Morte de Robin Hood” seja o filme menos satisfatório de Sarnoski, ele não difere de seus antecessores com relação à qualidade do roteiro, à força de um elenco enxuto, quase minimalista, e ao clima de desgraça total. Com um orçamento dez vezes menor, seu protagonista é verdadeiramente o homem complicado que “Odisseia” não conseguiu recriar.