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Documentário da Netflix reflete o legado complexo de "America's Next Top Model", reality show apresentado e produzido por Tyra Banks.
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É difícil explicar o impacto de “America’s Next Top Model” para quem não era uma garota adolescente nos anos 2000. É provável que você tenha visto algum influencer, no YouTube ou no TikTok, comentando um episódio mais escandaloso do reality show. Pode até ter ouvido falar da sessão de fotos com “etnias trocadas” ou dos berros da modelo e apresentadora Tyra Banks – mas aquele “I WAS HOOTING FOR YOU, WE WERE ALL HOOTING FOR YOU” é nosso.

No novo documentário “Reality Check: Inside America’s Next Top Model”, Banks e os demais responsáveis pelas várias polêmicas (entre eles, o produtor Ken Mok e os jurados Jay Manuel, Miss J. Alexander e Nigel Barker) insistem que eram “tempos diferentes” – e eram mesmo. O argumento, porém, não diminui o fato de que figuras razoavelmente estabelecidas da moda exploraram os sonhos de meninas que, em muitos casos, não tinham sequer 21 anos.

No começo dos anos 2000, a explosão dos reality shows consagrou franquias como “Survivor” (em versão brasileira, “No Limite”), “American Idol” e “Big Brother”. Em 2007, a greve dos roteiristas de Hollywood apenas multiplicou as produções “sem script”, mas o custo reduzido desse tipo de programação já seduzia as emissoras desde o espetáculo midiático do julgamento de O.J. Simpson, ocorrido entre novembro de 1994 e outubro de 1995.

Adicionando lenha à chama da infâmia, “America’s Next Top Model” estreou em 2003 – um ano antes de “O Aprendiz”, que catapultaria Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. No formato estabelecido pela ex-modelo da Victoria’s Secret, um grupo seleto de jovens participa de desafios (mais ou menos) relacionados ao mundo da moda. Toda semana, os jurados eliminam uma candidata da competição – até que seja eleita, por fim, “a próxima top model”.

A promessa da fama instantânea atraiu muitas garotas em situações de vulnerabilidade. Seus relatos chorosos, sempre acompanhados da mesma trilha sonora, envolviam questões que iam do abandono parental até desastres como o do furacão Katrina. Entre os prêmios do programa, o mais cobiçado era um contrato com uma agência de modelos. Em tese, era a garantia de que a vencedora teria estabilidade – mas nem tudo que reluz é “smize”.

No documentário da Netflix, Banks se expressa como um robô de relações públicas, selecionando cada palavra para dar a impressão de humanidade. Suas diretrizes não permitem com que ela admita os próprios erros sem, logo em seguida, apontar algum outro culpado. Na sua visão distorcida, eram as espectadoras de 16 e 17 anos que exigiam as bizarrices que ela inventava como produtora executiva do reality show.

Para ela, suas intenções sempre foram nobres. Com o programa, Banks queria, supostamente, desafiar os padrões de beleza da indústria. Ao lado de Naomi Campbell, ela foi mesmo uma das pioneiras em passarelas e editoriais antes tomados por modelos brancas como Linda Evangelista, Cindy Crawford e Claudia Schiffer. Por repetidas vezes, no entanto, “ANTM” só reforçou algumas das convenções mais cruéis do ramo – em especial, a obsessão pela magreza.

A despeito da defesa apaixonada que Banks fez das próprias curvas, depois que um tabloide publicara uma foto sua de maiô, não são raros os relatos de meninas que acabaram desenvolvendo transtornos alimentares por conta do reality show – eu mesma fui uma delas. Afinal, garotas que vestiam tamanhos acima do 38 eram consideradas “plus size” e rotineiramente atacadas.

“Reality Check” menciona, por exemplo, o tratamento dado a uma participante que engordou durante as filmagens. Keenyah, da quarta temporada, foi escolhida para personificar a gula num ensaio fotográfico sobre os sete pecados capitais; em outro, representou um elefante africano. O controle da aparência das aspirantes se dava em tom de chacota – para o júri, era necessário “acostumá-las” com as humilhações do métier.

Nos anos 2000, quando proliferaram os blogs de fofoca sobre personalidades como Paris Hilton, Lindsay Lohan e Britney Spears, o espírito de porco era a norma. Havia uma maldade generalizada no ar, um cinismo rancoroso que hoje podemos identificar como a nascente da extrema direita na internet, que logo se organizou em fóruns escancaradamente misóginos como o 4chan.

Antes das redes sociais imporem o “politicamente correto”, quem não se juntava ao coro dos valentões corria o risco de também virar alvo. Desta forma, toda uma geração de adolescentes foi treinada a detestar corpos absolutamente normais – inclusive os nossos. O zeitgeist, contudo, não exime a crueza do reality show, mas só tornava ainda mais imprescindível o repúdio dessas práticas, considerando o seu público-alvo.

De maneira insidiosa, “ANTM” ensinava às jovens (relembrando, muitas delas já habituadas às situações de abuso) que não era “profissional” reclamar ou causar qualquer tipo de fricção – nem se as modelos estivessem à beira da hipotermia ou sendo assediadas diante das câmeras. Fora a cintura diminuta, engolir o choro era um dos critérios mais cobrados por Banks e cia.

Dividido em três episódios, o documentário não dá conta de abordar todas as sacanagens cometidas no decorrer de 24 temporadas de “ANTM” – como a vez em que uma participante desmaiou e foi obrigada a pagar pela própria ida ao pronto-socorro; ou quando uma modelo com deficiência visual teve de desfilar numa passarela preta com luzes estroboscópicas.

O legado do reality show, entretanto, é complexo. Por um lado, causou um dano gigantesco na autoestima de millennials mundo afora. Por outro, introduziu toda a gama LGBTQ ao mainstream, em tempos em que a homofobia era mato. Não há dúvidas de que a presença de Miss J. Alexander – preto retinto e afeminado – abriu caminho para o fenômeno que “RuPaul’s Drag Race” se tornaria anos mais tarde.

Para mim, foi significativo quando Michelle (da mesma temporada de Keenyah) foi aceita pelas demais competidoras ao se assumir bissexual; foi importante a participação de Kim, na quinta temporada, como uma lésbica andrógina que mencionava a namorada com naturalidade. Fora do reino das produções mais risqué da HBO, nada disto era comum de se ver na televisão – menos ainda em programas destinados a adolescentes.

Na cultura pop, todo reality show carrega o ônus de transformar os seus inscritos em produtos. O formato “sem script” achata pessoas comuns em “narrativas” – sem o intuito de refletir a realidade como ela é, mas somente de extrair lucro de dramas tanto verdadeiros como fabricados. A humanidade, porém, dá um jeito de florescer até mesmo nos ambientes mais inóspitos, como nos sets de “America’s Next Top Model”.

Dito isso, Tyra Banks deveria estar presa.

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