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Com Gillian Anderson e Hannah Einbinder, "Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte" vai além da mera metalinguagem.
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“Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte” começa com o ponto de vista ofegante de um câmera desconhecido – como no início de “Um Tiro na Noite”, de Brian De Palma, em que John Travolta interpreta um técnico de som. O voyeurismo, porém, é direcionado à própria produção, pois vemos parte da equipe se movimentando pelo set, até a câmera ser afixada num tripé. Aí, sim, vamos à encenação.

A câmera mostra, bem afastada dos atores, um assassino atacando um casal aleatório com uma lança. A distância garante a comicidade do jato de sangue, que chega a uns dois metros de altura, assim que a cabeça de uma das vítimas é decepada. O exagero serve justamente para tranquilizar o espectador, como se nos dissesse “não se preocupe, é tudo faz de conta”. De perto, entretanto, a violência já parece mais real.

Tão real que, décadas atrás, “Acampamento Miasma” adotou o slogan “se ficar real de mais, você sempre pode desligar” – uma frase utilizada nas propagandas de fitas VHS da franquia fictícia de terror. Aqui, a referência mais óbvia é “Sexta-Feira 13” (que, por sua vez, foi uma brincadeira com “Psicose”, de Alfred Hitchcock), mas há um pouquinho de “O Massacre da Serra Elétrica”, de “A Hora do Pesadelo” e, especialmente, de “Acampamento Sinistro”, um slasher menos popular.

Sem querer dar spoilers de uma produção de 1983 (eu mesma vi documentários que abordavam o filme antes de ver o filme em si), mas o antagonista de “Acampamento Sinistro”, dirigido por Robert Hiltzik, não é um brutamontes com um facão e uma máscara de hóquei ou um demônio com o rosto queimado e lâminas nos dedos, mas uma menina. No clímax, no entanto, é revelado que ela tinha um pênis.

Inspirado em “Acampamento Sinistro”, o vilão de “Acampamento Miasma” é conhecido como “Pequena Morte” (em francês, “pequena morte” é um apelido dado ao orgasmo), interpretado pelo ator trans Jack Haven. De acordo com a lenda, “Pequena Morte” era um jovem que foi criado pelos pais tanto como um menino quanto como uma menina. Afogado no lago do acampamento por um grupo de adolescentes, ele ressurge das profundezas para se vingar.

“Acampamento Sinistro” não foi o primeiro nem o último filme de terror a apostar na assustadora ameaça da “degeneração sexual”. Houve também “Silêncio dos Inocentes”, “Vestida para Matar” e o próprio “Psicose” – isto sem nem falar no desserviço que Ryan Murphy nos presta há anos. Em Hollywood, contudo, a representatividade queer costumava ser tão mínima, que restou à comunidade LGBTQIAP+ abraçar os seus vilões.

Embora sejam produções que condenam o desvio da norma, o terror em si é transgressor, pois revela, com toda a glória de um gigantesco jorro de sangue, aquilo que muitos não querem ver ou sequer admitir que existe. E assim, nós escolhemos interpretar o gênero como uma celebração – mesmo quando a sua bússola moral é indefensável.

Em “Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte”, Kris é uma jovem cineasta que recebeu a missão de revitalizar a propriedade intelectual de “Acampamento Miasma”. Interpretada por Hannah Einbinder, ela é uma mulher queer que foi escolhida, precisamente, para aplacar possíveis acusações de transfobia e misoginia. É como a Warner que, numa tentativa de se antecipar à “cultura do cancelamento”, convidou várias diretoras para a série de “Harry Potter”.

Kris é fã de “Acampamento Miasma” desde criancinha. Ela sabe que o conteúdo dos filmes é problemático (pelo menos, os criadores não são bilionários patrocinando nazistas mundo afora!) e que os produtores só confiaram o reboot em suas mãos para se aproveitarem de sua identidade, isto é, para lavar a imagem politicamente incorreta da marca. Ela está tão ciente destas questões todas que mal consegue se conectar ao que realmente importa.

No caminho para conhecer Billy Presley, atriz que deu vida à “final girl” do primeiro filme, Kris para em uma loja de conveniência e encontra um dvd de “Acampamento Miasma 4” à venda. Já em seu hotel, ela assiste a uma cena em que uma adolescente fica nua para mergulhar no lago com o namorado. Kris abre um caderno e anota “DESEJO” – horas antes, porém, ela nem percebeu que a caixa da lojinha estava flertando com ela.

Ao longo do filme, o slogan “se ficar real de mais, você sempre pode desligar” é repetido várias vezes, mas o problema com Kris não é ficar real de mais. Ela está tão presa dentro da própria cabeça que não consegue embarcar na fantasia, não consegue se libertar e se entregar ao prazer. Os franceses chamam o orgasmo de “pequena morte” porque é um momento de rendição total, em que a mente, e todas as nossas travas morais e culturais, cedem o controle para o corpo.

Inicialmente, há um choque geracional quando Kris conhece Billy. Vivida por Gillian Anderson, Billy estrelou “Acampamento Miasma” quando tinha apenas 24 anos. Embora tenha sido convidada para participar das sequências, ela abandonou Hollywood, comprou o acampamento em que o original foi filmado e passou décadas em reclusão – como Norma Desmond, em “Crepúsculo dos Deuses”.

Apesar da diferença de idade, Kris e Billy possuem experiências semelhantes no que se refere ao desejo. Quando as duas vão assistir a uma projeção de “Acampamento Miasma”, Billy parece atormentada pelo o que vê em tela. Afinal, foi a sua primeira experiência sexual, tanto na ficção como na realidade. No filme, Billy interpreta a heroína virginal. Uma adolescente que se sente deslocada do resto do grupo, pois passa mais tempo imaginando a própria morte do que a sua primeira vez.

Durante uma festa, a personagem de Billy é abordada por um cara, que pergunta se ela não quer ir para um lugar mais sossegado. Num lapso, como se esquecesse do seu papel na trama de “Acampamento Miasma”, ela responde que não – mas depois retorna à personagem e acaba aceitando. Ela não estava interessada em sexo, mas encarou o rito de passagem como um dever. “Melhor resolver isto logo de uma vez”, deve ter pensado.

Consigo imaginar o que ela sentiu porque eu também achei que o sexo era como uma obrigação inevitável, algo que eu devia a alguém. É bizarro, mas o consentimento e o prazer feminino são ideias relativamente recentes. Antes mesmo da minha primeira vez, lembro de ver inúmeras cenas de sexo em que a mulher ficava inerte enquanto o homem fazia o que tinha de fazer, sem se preocupar com a expressão de tédio ou desconforto no rosto da parceira.

Nós, mulheres, acumulamos experiências negativas com o sexo. Antes mesmo da puberdade, já somos assediadas e condicionadas a aceitar o assédio como um fato da vida – o que nos coloca em situações em que a resistência mínima pode nos parecer, muitas vezes, como a opção mais segura. Aprendemos, portanto, que o sexo é um preço que pagamos para sermos aceitas. É o nosso papel. E, assim, colecionamos traumas.

Contra um estresse insuportável, um possível mecanismo de defesa da mente é a dissociação – aqui, o slogan “se ficar real de mais, você sempre pode desligar” se encaixa. Enquanto Billy é abusada diante das câmeras, ela abandona o próprio corpo e passa a enxergar a cena pelos olhos de Pequena Morte, que entra vagarosamente no quarto para assassinar o casal. Ao vislumbrar a lança do assassino, prestes a perfurar as costas do rapaz, ela goza. Ela está morta. Ela está livre.

Kris fica intrigada com o olhar de Billy nesse instante do filme. Mesmo num relacionamento poliamoroso (“minha namorada tem um namorado”, ela explica em outro momento), ela não vê prazer no sexo. “Eu não sei o que há de errado comigo, eu sou uma bosta com sexo. Eu não consigo… Jesus Cristo. Eu não consigo, tipo, me concentrar ou, eu não sei, eu só… É uma vergonha. Eu me odeio.”

Em seu universo paralelo, Billy pode ajudar Kris a silenciar esse fluxo constante de autocríticas e, por fim, vivenciar fantasias tão moralmente duvidosas quanto o terror da década de 1980. Rodeadas de doces, o sexo se transforma numa travessura de Dia das Bruxas – mas não se preocupe, é tudo faz de conta!

“Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte” é dirigido por Jane Schoenbrun, também responsável por “Eu Vi o Brilho da TV” e “We’re All Going to the World’s Fair” – obras que tratam do escapismo como uma ferramenta de descoberta de nossas identidades e de pura sobrevivência. A capacidade da arte (até mesmo de um filme em que a mocinha corre com os peitos balançando de um assassino mascarado) de nos transportar para fora de nossos próprios corpos, ao encontro de quem nós verdadeiramente somos.

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