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Quase uma década após o "Dark Universe", a nova múmia lembra mais "Cemitério Maldito" e "O Exorcista", só que ruins.
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O Museu Britânico segue na liderança, mas Hollywood também adora abrir sarcófagos. Para não criar confusão com as múmias de 1932, 1959, 1999 e 2017, o título original de “Maldição da Múmia” é “Lee Cronin’s The Mummy”. Distinções à parte, a adição do nome do diretor/roteirista confere um certo prestígio ao lançamento, como “Clive Barker’s Hellraiser” – com a diferença de que, perto de Barker, Cronin é o famoso “quem?”.

Mais conhecido por “A Morte do Demônio: Ascensão”, o cineasta irlandês de 44 anos (jovem para os padrões da indústria) teve a sua grande estreia com o mediano “The Hole in the Ground”. Mesmo assim, caiu nas graças dos produtores e foi incumbido de repaginar o monstro clássico. Desde “O Homem Invisível”, de Leigh Whannell, a Blumhouse tenta emplacar o seu próprio “Dark Universe” – o mais recente “Lobisomem”, porém, não fez sucesso.

“Dark Universe” foi, é claro, a malfadada tentativa da Universal de ressuscitar seus clássicos do terror para transformá-los numa franquia aos moldes da Marvel – um projeto ambicioso que incluía grandes astros como Tom Cruise, Russell Crowe e Javier Bardem. Mas o sonho (ou pesadelo?) começou e acabou com o atroz “A Múmia”, de 2017. Quase uma década depois, “Maldição da Múmia” não desfaz o feitiço.

Jack Reynor, de “Midsommar”, interpreta Charlie Cannon, um correspondente internacional que mora com a família no Cairo. Um dia, sua filha Katie é raptada por uma mulher misteriosa e só reaparece oito anos depois – mumificada, dentro de um sarcófago. Para o espanto de todos, a menina está viva, só extremamente debilitada. De maneira inexplicável, ela recebe alta do hospital para se recuperar em casa, como se tivesse apenas levado um tombo de bicicleta.

Assim, a “múmia” de Lee Cronin remete mais a “Cemitério Maldito” do que ao ícone eternizado por Boris Karloff – atendendo aos desejos dos pais, uma criança retorna do reino dos mortos, mas retorna diferente, corrompida… Demoníaca. Há também vários elementos copiados de “O Exorcista”. No terror setentista, porém, a possuída é levada a, pelo menos, uma dúzia de médicos especialistas para descobrir o que há de errado com ela.

Na primeira demonstração de violência, Charlie questiona se não é melhor internarem Katie, o que a mãe dela encara como uma ofensa pessoal. Que tipo de mãe desnaturada não é capaz de cuidar de uma garota catatônica, subnutrida (mas, paradoxalmente, muito forte) e que, no mínimo do mínimo, enfrenta problemas psiquiátricos gravíssimos em decorrência de um trauma sem precedentes? E daí que os seus outros filhos estão correndo risco nesta situação?

O terror sobrenatural já é bastante generoso com os limites do que é narrativamente razoável e, no entanto, Cronin não consegue gerar um grãozinho de plausibilidade. Talvez por preguiça ou desleixo, ele precisa transformar os seus personagens em imbecis para fazer o filme acontecer  do jeito que ele quer – o que facilita o trabalho dele como roteirista, mas inviabiliza a empatia e o entretenimento do espectador.

Apesar de morarem juntos, os personagens não compartilham informações cruciais. Na casa da família, um barulho altíssimo no segundo andar não afeta quem está no primeiro. Nada tem relação com nada nem ninguém. Uma mancha de mofo surge num local estratégico porque, sei lá, múmias agora têm o poder do mofo. Também é possível transmitir os poderes da múmia por meio de um vômito preto que desafia a gravidade – claro, por que não?

Com mais de duas horas dessa aleatoriedade sem nexo, “Maldição da Múmia” faz múltiplas referências a filmes bem melhores. Justo num reboot que exibe orgulhosamente o nome do diretor em seu título, mas sem apresentar as características que estabeleceriam uma marca autoral – originalidade e coesão. O único lugar-comum que Cronin desafia é o de que filho feio não tem pai.

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