Emily e o autismo

A representação do autismo na cinebiografia da escritora Emily Brontë, autora de "O Morro dos Ventos Uivantes".

Por Ieda Marcondes em 11/01/2023
Observação: O texto abaixo é resultado da breve convivência num grupo online de apoio a mulheres autistas e das informações contidas no documentário "In a Different Key". Para mais detalhes, procure um profissional especializado em TEA.

Aqui no Brasil, “Emily” foi divulgado como uma história sobre uma mulher forte, rebelde e apaixonante. Estrelado por Emma Mackey (da série “Sex Education”) e dirigido por Frances O’Connor, o filme sobre a jovem autora de “O Morro dos Ventos Uivantes”, clássico publicado em 1847 (um ano antes da morte prematura de Brontë aos 30 anos), é também uma excelente desculpa para falar de autismo.

Claire Harman, a biógrafa de Emily Brontë, já havia levantado a possibilidade da escritora ter sido autista – na verdade, ela diz que Brontë parecia ter síndrome de Asperger, mas o termo caiu em desuso por conta do envolvimento do médico austríaco Hans Asperger com o regime nazista. Assim, a síndrome passou a fazer parte do amplo espectro autista.

A primeira pessoa diagnosticada com autismo ainda está viva. O americano Donald Gray Triplett, agora com 89 anos, escapou de passar a vida trancafiado em um sanatório desde os 3 anos – tratamento recomendado pelos médicos da época – graças à tenacidade de seus pais, que documentaram seus sintomas e procuraram pelo psiquiatra Leo Kanner.

Foi apenas em 1943 que Dr. Kanner publicou um estudo em que utilizava o termo “autismo” para se referir a um grupo de crianças com “um desejo poderoso de solidão” e “uma insistência obsessiva pela mesmice persistente”. Donald ficou conhecido, na história da medicina, como “caso 1” – embora não fosse o primeiro, na história da humanidade, a apresentar tais sintomas.

Hoje em dia, muitos tratam o diagnóstico de transtorno do espectro autista como uma moda recente, como se vários autistas tivessem brotado do chão de uma hora para outra. A verdade é que, com um acesso maior à informação, pessoas que passariam a vida inteira tentando se encaixar ao padrão neurotípico podem, enfim, receber o diagnóstico correto.

Como tudo mais na vida, porém, conseguir o diagnóstico correto é mais fácil para meninos e homens brancos do que para todo o resto da população. Como a maioria dos médicos (também homens brancos) se debruçou sobre o comportamento de meninos brancos, os critérios oficiais excluíam as diferenças nos comportamentos de meninas, mulheres, negros e latinos.

É relativamente recente o reconhecimento da Associação de Psiquiatria Americana de que os sintomas do TEA podem ser diferentes em meninas. Utilizada sobretudo por mulheres, o “masking” é uma estratégia de sobrevivência que busca camuflar tudo o que for considerado “estranho” e agir de acordo com o que é esperado em situações sociais – o que só dificulta ainda mais o diagnóstico.

Instintivamente, um neurotípico sabe o que deve falar ou como deve se comportar. Já o autista – em especial, a mulher – precisa aprender, praticar e performar certas atitudes para fingir uma “normalidade”. Imagine conversar com alguém e, ao mesmo tempo, pensar se a sua expressão facial está denotando o que você quer denotar, se o seu corpo está na posição correta, se o seu volume de voz é adequado etc..

Assim, muitas mulheres autistas são diagnosticadas com depressão e ansiedade ao longo da vida, porque até mesmo as tarefas mais básicas, como trabalhar ou ir ao mercado, envolvem uma série de processos mentais constantes – além das sensibilidades sensoriais do transtorno. Mulheres no espectro estão duas vezes mais propensas ao suicídio do que os homens.

Não é um grande salto interpretativo dizer que, na nova cinebiografia de Emily Brontë, Mackey está representando uma mulher autista. Com grande dificuldade para se relacionar com os outros e vista por todos como a ovelha negra da família, Emily tenta, com muito sofrimento, se ajustar às expectativas ao seu redor.

Há uma cena em que a protagonista, em crise por viver um amor proibido, literalmente cobre o próprio rosto com uma máscara e, então, passa a tratar o seu amante com a frieza que a situação demanda – assim como o “masking” do TEA.

Ainda que “Emily” tenha um final trágico – afinal, estamos falando do século XIX –, é positivo ver uma representação do espectro tão diferente do que acabou se tornando a referência estereotipada de muitos, isto é, o papel de Dustin Hoffman em “Rain Main”.

Com representações mais variadas do espectro chegando ao público leigo, é possível promover uma aceitação maior e evitar com que outras mulheres geniais como Emily Brontë sejam obrigadas a se sujeitar à norma.

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