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Netflix: Gabinete de Curiosidades

Guillermo del Toro apresenta seleção variada de expoentes do terror.
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Como muitos brasileiros, fiquei paralisada entre o primeiro e o segundo turno. A medida que a decisão se aproximava, fui jogando todas as responsabilidades para depois, porque não tinha mais capacidade mental de lidar com qualquer outra coisa. E aí veio a covid, que foi branda, graças às quatro doses de vacina, mas ainda me deu uma derrubada.

Apesar de toda sorte de tramoia por parte do governo, nós vencemos e podemos levar a vida adiante, mesmo com os nervos (e os pulmões) em frangalhos. Fiz todo este preâmbulo para explicar a minha ausência nas últimas semanas e por que não continuei com a lista dos melhores filmes de terror do século 21 – ainda quero rever algumas escolhas e concluir mais para frente.

A série “Gabinete de Curiosidades” foi lançada na Netflix no dia 25 de outubro, pouco antes do Halloween e também do grande exorcismo nacional de 2022. Nesses dias em que a coluna travou de nervoso, foi um alívio poder contar com a presença amigável de Guillermo del Toro que, apesar da paixão pelo macabro, é sempre uma fofura.

O diretor mexicano, vencedor do Oscar por “A Forma da Água”, apresenta cada episódio desta coletânea de terror, seguindo o mesmo estilo de séries clássicas como “Alfred Hitchcock Presents” e “Twilight Zone” (retomada, mais recentemente, por Jordan Peele). São oito episódios independentes, em eras e universos diferentes.

Na equipe, que inclui mulheres e nacionalidades variadas, estão Guillermo Navarro, colaborador frequente de del Toro; Vincenzo Natali, diretor de “Cubo”; David Prior, de “O Mensageiro do Último Dia”; Ana Lily Amirpour, de “Garota Sombria Caminha pela Noite”; Keith Thomas, da refilmagem de “Chamas da Vingança”; Catherine Hardwicke, de “Crepúsculo”; Panos Cosmatos, de “Mandy” e Jennifer Kent de “O Babadook”.

Há uma certa predominância de histórias relacionadas à obra de H.P. Lovecraft, que não poderia faltar em uma coletânea de terror, mas que também não precisava de dois episódios. Lovecraft é uma referência já bastante utilizada, por que não ir atrás de autores menos conhecidos ou até mesmo escrever algo original?

Navarro dirige o primeiro episódio, “Lote 36”, baseado num conto escrito pelo próprio del Toro. Tim Blake Nelson, que é um excelente ator, interpreta um ranzinza um tanto caricato, que compra um depósito abandonado e acaba encontrando livros raríssimos de ocultismo. É uma premissa interessante, mas a insistência em retratar Nelson como intragável torna tudo cansativo.

Natali é responsável pelo segundo episódio, “Ratos de Cemitério” – que, apesar de não ser de Lovecraft, se passa mais ou menos no mesmo período. Aqui, David Hewlett vive um escroque com uma certa graça. Apesar de ser um ladrão de túmulos, há momentos em que o espectador pode torcer por ele, ainda mais quando se trata de um horror claustrofóbico repleto de ratos.

“A Autópsia”, de Prior, traz F. Murray Abraham como um médico legista que é chamado para solucionar um estranho acidente em uma mina. É um bom episódio, mas que vai e volta no tempo tantas vezes, com tantas exposições, que poderia ter sido um filme de 90 minutos e não um episódio de apenas uma hora.

O quarto episódio, dirigido por Amirpour, é talvez a grande decepção. Com o tema manjado da busca feminina pela beleza, o problema aqui é o oposto de “A Autópsia” – há conteúdo de menos para a duração. Poderia ser um curta interessante de 20 minutos, mas esticado até os 60, fica evidente a total falta do que dizer. É um desperdício de Dan Stevens.

Neste ano, massacrei a refilmagem de “Chamas de Vingança” em minha crítica para a Folha, mas Thomas é um bom diretor em “O Modelo de Pickman”, baseado num conto de Lovecraft. A história pode não funcionar muito bem, mas Thomas cria bons momentos de tensão. E é sempre um prazer ver Crispin Glover interpretando mais um maluco.

O sexto episódio é o pior de todos, mas ninguém esperava muito da diretora de “Crepúsculo”, ao contrário de Amirpour. Também baseado em Lovecraft, “Sonhos na Casa da Bruxa” tem Rupert Grint usando drogas alucinógenas para reencontrar o espírito de sua irmã gêmea morta. É um roteiro bastante ruim de Mika Watkins e Hardwicke não faz milagres.

Os dois últimos episódios são, de fato, a pièce de résistance. Cosmatos depontou no cenário do terror indie com um Nicolas Cage alucinado e banhado na luz neon de “Mandy” e Jennifer Kent, com “O Babadook”, ajudou a lançar o chamado “pós-terror” (um termo ruim para tratar de filmes de terror que são como alegorias refinadas de assuntos pesados como depressão pós-parto).

“A Inspeção”, de Cosmatos, é um episódio de “vibes”. Trata de um grupo de pessoas ilustres em seus meios que são reunidas por um ricaço excêntrico para usar drogas, escutar música e terem todos uma “experiência sensorial” – que, obviamente, não acaba bem. São personagens cativantes, com uma trilha matadora, e um elenco recheado de gente “cool”.

Já “O Murmúrio”, de Kent, segue por um caminho muito mais emotivo e menos superficial. Essie Davis, também de “O Babadook”, carrega um episódio de sensibilidade vitoriana nas costas. Nos últimos anos, trauma e luto viraram temas batidos dos filmes de terror que almejam uma ilusão de profundidade, mas Kent parece sincera.

Se “Sorria”, por exemplo, se recusa a cair na galhofa e arrisca um discurso sobre trauma para fingir relevância, “O Murmúrio” parece mesmo sentir tudo o que ele tem a propor sobre o assunto da perda. Não é uma pose de tristeza, como muitos filmes têm tentado, mas uma genuína disposição melancólica. E de melancolia eu entendo.

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