O novo “O Morro dos Ventos Uivantes” é com aspas. Está no pôster oficial e nos créditos iniciais. Até a Warner Bros. tem pegando no pé dos críticos para que usem aspas no título do filme – em publicações internacionais, é mais comum o uso do itálico ou da caixa alta. Parece um detalhe bobo, mas é mesmo um indicativo do que aguarda o espectador.
Na direção, Emerald Fennell surgiu com “Bela Vingança”, vencedor do Oscar de melhor roteiro original de 2021 e indicado em mais quatro categorias; mas estourou mesmo com “Saltburn”, uma salada de referências literárias com foco em cenas picantes, estreladas por Barry Keoghan e Jacob Elordi, que viralizaram no TikTok. E assim, Fennell encontrou o seu nicho.
Após misturar “O Talentoso Ripley” com “Retorno a Brideshead”, num desserviço simultâneo às obras de Patricia Highsmith e Evelyn Waugh, uma releitura equivocada do romance de Emily Brontë, claramente destinada à geração Z (tem até Charli XCX na trilha sonora), era inevitável – é como Tim Burton fazendo a série “Wandinha”, uma escolha não só óbvia como pouco inspirada.
De fato, “O Morro dos Ventos Uivantes” me lembrou do diretor de “Beetlejuice” – não por qualquer semelhança estética ou temática, mas pelo aceleradíssimo processo de caricaturização de si mesma que Fennell atingiu. Se Tim Burton levou décadas para perder qualquer vestígio de amor ou entusiasmo pelo ofício, repetindo a esmo o que os fãs já esperam dele, a britânica “conquistou” o mesmo em questão de três anos – conquistou, é claro, com aspas.
“O Morro…” começa com a cena de um enforcamento público que logo desemboca num carnaval – o enforcado tem uma ereção bastante visível, o que faz o vilarejo vibrar de excitação. Olhando para o pênis do cadáver, uma freira lambe os beiços; a criadagem se agarra pelos cantos. É um comentário social sobre a proximidade do desejo à violência, mas feito da maneira mais infantilóide possível.
Da mesma forma, Fennell insiste em planos aproximados de ovos espatifados, com a clara representando o fluido vaginal. Interpretada por Margot Robbie, Catherine enfia os dedos em todo tipo de meleca ou gelatina, numa alusão nada sexy ao despertar sexual da protagonista – o que causa certa estranheza quando a atriz tem 35 anos.
Por parte considerável de “O Morro”, Robbie tem de atuar como uma criança insuportável para nos convencer da impetuosidade da personagem – uma tarefa ingrata até mesmo para uma profissional talentosa como ela. É evidente que Robbie é lindíssima, mas trata-se de uma mulher madura agindo como uma debutante.
No livro, Catherine e Heathcliff são adolescentes. Uma adaptação mais adulta é possível (há mais de uma dúzia de “O Morro dos Ventos Uivantes”, com atrizes como Merle Oberon, Juliette Binoche, Kaya Scodelario, Anna Calder-Marshall etc.), mas Fennell parece acentuar o comportamento infantil de Catherine, provocando uma dissonância ao estilo de Hebe Camargo no papel de Julieta.
Antes mesmo da estreia, muitos já estavam insatisfeitos com o novo filme pelas várias diferenças em relação ao romance – especialmente, com a escolha de Elordi como o par romântico de Robbie. Embora tenha sido interpretado por atores como Laurence Olivier, Ralph Fiennes e Tom Hardy (por sinal, todos também com mais de 30), Heathcliff não é branco.
Somente a adaptação de 2011, dirigida por Andrea Arnold, contou com um ator negro – o que também não é exatamente fiel. Brontë descreve Heathcliff de forma dúbia, usa o termo “cigano” (exônimo de romani); diz que parece meio espanhol, mas também saído do sul da Ásia… É como a enfermeira de “Entre Facas e Segredos” que, dependendo do personagem que a descreve, imigrou de um país latino diferente.
A dinâmica racial importa pois só reforça o tabu em torno do relacionamento de Catherine e Heathcliff em pleno século 18, mas Fennell – assim como a enorme maioria de seus antecessores – optou pelo caminho menos complicado da mera diferença de classes. Apesar de não ser ideal, Elordi é, no entanto, o ponto alto da nova adaptação.
No início da carreira, Elordi parecia um galã inexpressivo, mas pegou embalo com “Frankenstein” e “O Morro”. Curiosamente, ambos são filmes de época em que o ator interpreta um bruto analfabeto e à margem da sociedade que é açoitado por uma figura paterna e vive um amor proibido de final trágico. Um verdadeiro herói gótico.
Alguns críticos exaltaram os figurinos e os cenários estilizados, mas nada parece ter muita profundidade na obra de Fennell. Se “Maria Antonieta”, de Sofia Coppola, reflete o rico universo interior de uma adolescente que se vê como soberana de um país desconhecido, “O Morro” tem uma aparência estéril e esparsa, como um ensaio fotográfico na Vanity Fair – é até interessante de olhar, mas um clique não se acrescenta ao outro.
Na noite de núpcias de Catherine, por exemplo, Robbie surge num vestido que remete ao embrulho plástico de um presente – ela se tornou, enfim, propriedade de seu marido. Todas as decisões estéticas da diretora são frívolas assim, como se qualquer complexidade tivesse de ser assingelada. A versão de Fennell é, afinal, como um filé mignon batido num liquidificador para facilitar a digestão de um desdentado.
Mas não se preocupe, não é o verdadeiro O Morro dos Ventos Uivantes – é o com aspas.