É sempre desanimador quando um diretor (e roteirista) de filmes originais aceita participar de uma grande franquia. Por um lado, é um sinal de crescimento profissional, significa que um punhado de executivos – uma raça especialmente avessa a qualquer tipo de risco – escolheu aquele artista para liderar um projeto de muitos milhões de dólares. Por outro, é bastante provável que os engravatados queiram supervisionar cada escolha artística, o que pode resultar num desastre.
Sam Raimi, por exemplo, surgiu em 1981 com “Uma Noite Alucinante – A Morte do Demônio”, filmado com um grupo de amigos, uma vaquinha de 20 dólares (ok, foram US$350 mil) e um sonho/pesadelo. Nos anos 2000, com “Homem-Aranha”, ele ainda conseguiu manter seus maneirismos, apesar da pressão que um orçamento de US$139 milhões acarreta. Já com “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura”, no entanto, Raimi se tornou parte da estatística – mais uma vítima da máquina de triturar talentos que é o capitalismo.
Por isso e por vários outros casos (lembram quando a Marvel ofereceu “Viúva Negra” para Lucrecia Martel, desde que a cineasta não dirigisse as cenas de ação?), fiquei triste quando soube que Zach Cregger faria um novo “Resident Evil”. Quer dizer, tenho certeza de que a proposta da PlayStation (sim, o filme carrega o selo de “PlayStation Productions” e de mais um punhado de estúdios) foi generosa, mas quão livre o diretor seria para fazer o que bem entende? Ao que tudo indica, razoavelmente livre.
Se a estreia de Raimi nos cinemas foi com “Uma Noite Alucinante”, Cregger chegou oferecendo “Noites Brutais” – perpetuando a longa tradição de traduções bestas de títulos de terror, já que o original é “Barbarian”. No filme, uma jovem chega numa casa alugada por Airbnb e descobre que um outro hóspede já está alojado lá. Partindo desta premissa simples, “Noites Brutais” muda de foco repentinamente e, embora tenha falhas, sua trama nunca é previsível ou sem graça. Muito pelo contrário.
A obra seguinte do diretor, “A Hora do Mal” (tradução besta de “Weapons”), conseguiu a proeza, enfim, de fazer com que a Academia reconhecesse uma das excelentes atuações que tivemos no gênero do terror nos últimos anos. A vitória de Amy Madigan, pelo papel de tia Gladys, foi como uma espécie de reparação à injustiça que atrizes como Toni Collette (“Hereditário”) e Lupita Nyong’o (“Nós”) sofreram por não serem indicadas ao Oscar – como se, finalmente, Hollywood levasse o terror a sério.
“Resident Evil”, por sua vez, tinha tudo para sugar toda a personalidade de Cregger e nos cuspir de volta um terror genérico, mais semelhante à farofada encabeçada por Milla Jovovich (uma boa atriz, mas presa à mediocridade de seu marido, o diretor Paul W. S. Anderson) do que algo criativo e eletrizante como “A Hora do Mal”. Afinal, é isto o que as grandes corporações fazem, não é mesmo? Elas estragam tudo. Neste caso, contudo, Cregger não foi contaminado pelo vírus mediocrizante da Umbrella Corporation.
Austin Abrams, que já havia trabalhado com o diretor em “A Hora do Mal”, interpreta Bryan, um tipo de courier de órgãos humanos. Sempre que alguém precisa de um transplante, é ele que vai até o hospital com a sua caixinha do ifood. No começo de “Resident Evil”, ele tem uma última entrega a fazer antes de encerrar o expediente. Pelo celular, ele promete à namorada (que acabou de descobrir que está grávida) que logo irá voltar para casa.
Curiosamente, esta é a segunda adaptação cinematográfica deste ano, também baseada num videogame, que começa com um homem que acaba de receber a notícia de que pode ser papai. No japonês “Exit 8”, é como se o tormento da estação labiríntica, da qual o protagonista tenta escapar, fosse uma manifestação da própria incerteza com relação ao bebê. Já “Resident Evil” tem a ver com o medo da perda da individualidade – de maneira tanto metafórica como literal.
Após concluir a entrega, uma médica pergunta a Bryan se ele não poderia levar mais uma outra “encomenda” – esta é mais urgente e, portanto, paga melhor. Apesar de ter prometido à namorada que logo retornaria, ele acaba aceitando. E, mesmo tendo de dirigir à noite e sob uma nevasca, segue rumo ao destino do pacote: Raccoon City.
Assim, “Resident Evil” se passa no decorrer de uma única noite. De certa forma, lembra “Depois de Horas”, de Martin Scorsese, em que o personagem interpretado por Griffin Dune (Abrams até se parece um pouco com ele) tenta a todo custo voltar para casa, mas é impedido pelas personalidades mais pitorescas da vida noturna de Nova York.
Como Bryan não é um herói de ação tipo Leon Kennedy, que é capaz de sobreviver a qualquer catástrofe sem nem bagunçar o cabelo, ele está sempre à mercê das circunstâncias. Ele é um cara normal, sem treinamento para lidar com qualquer espécie de inimigo. Assim, ele se torna bem mais vulnerável aos vários perigos que encontra – o que é muito mais divertido para quem assiste.
Diferente de projetos mais nichados, como a adaptação que o youtuber Markiplier fez do jogo “Iron Lung”, “Resident Evil” funciona tanto para quem está mais do que familiarizado com o universo do videogame quanto para quem desconhece a franquia por completo. Afinal, Bryan também está tão perdido quanto um espectador que nunca ouviu falar de T-Virus ou Umbrella Corporation – esta é a vantagem de ancorar a narrativa em um novo personagem.
“Ah, mas como o filme pode ter relação com o jogo sem os personagens-legado?,” algum fã mais chatinho pode perguntar. Pois bem. Cregger incorpora elementos do jogo que vão dos easter eggs mais safados (sprays de cura, máquinas de escrever, plantas medicinais etc.) até o uso de planos em primeira pessoa (que não destoam do resto do filme) e quebra-cabeças típicos. Ou seja, há características do videogame tanto na linguagem como na narrativa.
A adaptação de Cregger é, definitivamente, um “Resident Evil”. Não um outro roteiro qualquer que só depois foi atrelado à franquia, como o mais recente “A Múmia”, que mais parece um “Evil Dead” que – provavelmente, atendendo ao pedido de algum executivo tonto – passou por uma reformulação de marca. E é um bom filme!
Desde 1996, quando o primeiro jogo foi lançado pela Capcom, os inimigos variaram bastante. De mortos-vivos tradicionais até os zumbis que ainda se recordam de suas vidas pregressas, como em “Resident Evil Requiem”, passando por criaturas que desafiam nomenclaturas, como mutantes e monstros criados em laboratório.
O monstrengo da versão de Cregger, entretanto, me lembrou de um outro jogo: “Inside”, dos mesmos criadores de “Limbo”. Lançado há uma década, o chefão final de “Inside” é uma massa gigantesca de pessoas aglutinadas buscando devorar a todos os indivíduos. Essa fobia da assimilação, isto é, da perda da individualidade, é algo que filmes mais recentes, como “Pecadores” e até “Backrooms”, também vem explorando.
Embora o final de “Resident Evil” seja frustrante, a obra de Cregger dialoga com esta sensação generalizada de que uma entidade praticamente irrefreável (“inevitável”, alguns diriam) quer consumir as nossas identidades e nos descaracterizar de tal maneira que nem poderíamos mais nos reconhecer como seres humanos – “Pecadores” reflete isto pelo viés racial e cultural, e “Backrooms” pelo psicológico e emocional.
Para Bryan, a paternidade pode significar esta despersonalização, um desligamento do próprio corpo para se ajustar ao papel que é esperado dele. Para um diretor de cinema que topa fazer parte de uma franquia, a grande ameaça é perder a expressão pessoal para atender às demandas do mercado. Com “Resident Evil”, Cregger resistiu às forças que nos obrigam a capitular. Pelo menos, por enquanto.